nem todo estupro tem “cara” de estupro – 1253

1253 – Tenho um relato, que até então na memória pareca uma mera lembrança ruim… até ressurgirem os detalhes nefastos.

Vasculhando a memória, relembrei uma situação muito tensa que vivi há um tempo atrás… parece que a memória bloqueia determinados sentimentos como forma de proteção, uma espécie de autonegação do que ocorreu de ruim em nossa vida… E só hoje caiu a ficha do que realmente aconteceu. Mesmo não tendo sido sexo, fui violada da mesma maneira.

Tive RAROS ficantes e sinceramente, acho que nunca uma experiência será mais traumática que uma que vivi nesse estilo… tecnicamente eu teria uma experiência onde fui mais longe, porém não foi tão traumático como o que eu passei em pleno dia do meu aniversário…

Um cliente constante e já conhecido da lan house onde eu trabalhava se ofereceu pra passear comigo… o cara ARMOU pra eu ir pegar ele na casa dele, no mesmo bairro, pra darmos uma volta à noite, era meu aniversário de 21 anos. Pus um macacão comprido, uma camiseta e fui…

Até hoje fico me perguntando se ele não sacou que eu era VIRGEM pelo meu comportamento arredio pra amassos mais intensos…

O cara armou um NINHO no meio da kitnet dele pra mim, quando eu subi na inocência achando que ele tava terminando de se arrumar e vi, me assustei, tava mais pra alçapão do que pra ninho na verdade… meu clima foi TODO embora na hora… tenho um certo medo profundo até de lembrar… dói aqui dentro, sabe… falar sobre me transporta de volta pra o lugar onde tudo aconteceu, me faz reviver tudo isso… Faz uns 8 anos e eu sinto a mesma mistura de pavor, com vergonha (se eu fui é porque ‘queria’?! Eu SEQUER IMAGINEI que ele faria isso, ele sempre foi tão gentil comigo…), impotência, e tensão total, até a gastrite ataca só de lembrar e descrever isso.

Parece besteira, mas vocês já podem imaginar: O cara vinha em cima de mim com uns beijos escandalosos e eu fugia pelas paredes, por baixo dos braços dele pedindo calma… Ele esperou eu me acalmar e disse que não sairíamos mais, que assistiríamos um filme; não gostei, mas aceitei… sentei no meio das almofadas do “ninho”, procurando ao redor algum dvd ou indício de que ele realmente passaria algum filme e em minutos o cara me agarrou de uma maneira que eu tentei escapar de todo jeito e não consegui, ele falava que eu estava querendo (mas querendo “o quê”, meu Deus???) suspendeu minha camiseta, meu top saiu do lugar, ele abocanhou meus seios, eu me sentia sufocada e cheguei a fingir desmaio por alguns segundos pra ver se ele parava, mas ele continuava, ele arranhou meu rosto esfregando a barba cerrada nojenta dele, ele era mais forte que eu, e se não fosse o macacão, acho que o pior teria acontecido… depois de muito tentar arrumar minha roupa e me encolher com vergonha e medo, pedindo pra parar, dizendo que não era assim, pra ter calma…

Acho que cansou de insistir e me mandou embora da casa dele instantaneamente. Mal me deixava terminar de arrumar minha roupa… Eu estava muito nervosa, desnorteada do que estava acontecendo, meu rosto ardia muito dos arranhões, pedi um copo d’água, e ele depois de muito reclamar indagando “pra quê você veio, então?” e sem me deixar responder nada, me deu o copo, que tremia em minhas mãos… Minha cabeça girava, minhas pernas tremiam, não conseguia pensar em nada, só em como ir embora dali…

Fui pra casa a passos rápidos, por caminhos diferentes, me senti suja e culpada e sem entender porque ele tinha feito isso, revisei todo o diálogo que ocorreu durante a tarde pra saber se eu tinha dado a entender que transaria com ele ou algo similar, mas não… ele apenas descobriu que era meu aniversário, eu era solteira e ele tinha me convidado pra dar uma volta, não era nada demais…

Minha cabeça a todo instante interrompia toda a reconstituição que eu tentava fazer gritando: “esqueça, foi só uma ficada que não deu certo”, eu mal dormi, era medo, era angústia, eu não conseguia entender, era demais pra mim… dias depois eu só lembrava dos “flashes” do que ocorreu.

(PESSOAS, nem todo estupro tem “cara” de estupro e só hoje caiu minha ficha… hoje analisando minuciosa e mentalmente os detalhes pra descrever… à primeira vista parecia um amasso, mas se o cara independente de sua experiência, repara que a moça tá esquivando e segue forçando a barra É ESTUPRO SIM. A maior parte dos estupros ocorre justamente dessa forma: Com pessoas conhecidas da vítima, algumas com certo nível de confiança, e em situações diferentes da rua escura tarde da noite)

Então… ele sumiu durante um bom tempo do bairro, e eu sentia pavor ao passar na rua onde ele morava. Anos depois reapareceu, mais velho e eu consegui ver o olhar malicioso dele, possivelmente lembrando do que aconteceu… e não, ele não se constrangeu nenhum minuto, ele me chamou pra sair “qualquer dia desses”, aquele nojento, escroto. Respondi de forma seca que tinha um namorado e que não estava interessada. Pedi a Deus mentalmente pra que ele sumisse de vez do bairro, e foi o que aconteceu.