O assédio é tanto que reagimos até quando não é – 1226

1226 – Geralmente me sinto melhor verbalizando pessoalmente com alguém quando vou contar sobre cantadas ou assédios que já sofri, por isso ainda não reuni coragem para relembrar todas essas situações, digitar e enviar para a página. O que me deu vontade de compartilhar são coisas que não são exatamente relatos de cantadas de rua, mas outros fatos embaraçosos que eu acho que algumas mulheres já passaram por andarem nas ruas sempre em posição de defesa ou ataque, por conta das cantadas. Um dia desses meu marido tava me contando que estava, no trânsito e viu que uma menina, que estava andando na calçada, não percebeu o celular dela cair. Ele me contou que deu uma buzinada pra tentar avisar à ela, mas a menina fez foi virar a cara para ele e saiu andando. Sorte que ele conseguiu avisar à uma senhora que vinha passando, aí a senhora pegou o celular e avisou pra menina que o moço do carro tava avisando que aquele celular era dela. Parece ter sido um pouco embaraçoso pra menina, mas senti na pele dela o que é passar por um carro e um desconhecido buzinar ou falar algo com você, a gente quer logo passar direto e fingir que não é com a gente.   Aí quando ele me contou isso me lembrei da época em que eu e ele namorávamos. Uma vez , ele me deixou no terminal para eu voltar para casa. Ele me acompanhou até o local onde se formam as filas para pegar o ônibus e nos despedimos. Assim que ele foi embora um rapaz de mochila se virou pra mim e disse “Oi gatinha…”, instantaneamente eu me espantei, senti um misto de medo, de revolta, tudo bem rápido e espontaneamente fiz cara de espanto, ou foi raiva, só sei que rapidamente eu me virei e caminhei ligeiro pra um banco do terminal e me sentei acuada.   Aí o rapaz caminhou até mim proferindo um monte de coisas que eu na hora nem estava compreendendo porque estava me sentindo intimidada, até que ele tirou da mochila um saquinho de plástico com um pequeno kit que vinha com uma caneta, um papelzinho com umas passagens bíblicas e não me lembro mais o quê. Foi aí que minha ficha caiu de forma que eu até comecei a compreender o que ele estava falando… Tem uns rapazes de casas de recuperação para pessoas que tiveram problemas com drogas que vendem esses pequenos kits com canetas e etc ,dentro de terminais e ônibus, até em praias. Eles sempre pedem educadamente um minuto de sua atenção e tal e começam a falar sobre o centro de recuperação e oferecem o kit para você comprar. Era isso que ele estava fazendo.   Eu já tinha visto isso muitas vezes, mas acabei me equivocando por andar sempre acuada por conta das cantadas. Pra falar a verdade, depois que minha ficha caiu eu não cheguei a ver maldade nem no “oi gatinha ” quando ele quis falar do centro e vender o kit, no meu caso é porque eu conheço muita gente, inclusive mulheres que se direcionam à pessoas desconhecidas assim com “gatinha”, “amorzinho”, “meu amor”. Fiquei tão envergonhada na hora que acabei nem pedindo desculpa nem explicando que me assustei achando que ele ia mexer comigo.   A vergonha que a gente sente em acontecimentos assim nem chega perto do que sentimos com as cantadas nas ruas, mas é muito ruim saber que a gente acaba passando por momentos embaraçosos por culpa de andarmos sempre acuadas, em modo de defesa, por culpa das cantadas.