O ciclo vicioso do abuso – 899

899 – Quis escrever esse relato porque já mandei várias coisas para a página e considero a Cantada de Rua a página feminista que mais permite interação. E também, porque meu coração apertou demais e eu não sabia para quem escrever. Se achar que não tem a ver com o conceito da página e não quiser postar, vou entender.

Minha mãe sofria agressão em casa. Eu achava um absurdo, passei anos sem falar com o meu pai e ele não entendia o motivo. Mas eu sabia. Eu me lembrava das cenas que tinha visto. Minha mãe me dizia para deixar para lá, aliás, foi o que ela me disse para fazer quando fui abusada por um primo aos cinco anos (situação da qual demorei anos para falar abertamente e hoje falo, afinal não me permito mais sentir vergonha no lugar dele). Mas quem pode culpa-la? Eu culpava. Durante muito anos. Mas este ano entendi que só quem vive ou viveu um relacionamento abusivo entende de verdade como é. Eu, mulher feminista, mulher consciente da minha posição de oprimida, permaneci durante seis meses com uma pessoa que me trancava no quarto e escondia a chave quando eu me recusava a transar com ele. Eu, que respondia cantadas de rua e rebatia comentários machistas, levei cuspidas na cara e ouvi ofensas que jamais imaginei que ouviria, da mesma boca que se abria para dizer que me amava. Levei tapas e socos da mesmo mão que me afagava. Foi assustadoramente fácil permanecer nessa situação, deixando tudo para lá, não falando sobre o assunto, fingindo que nada aconteceu. Quem pode me culpar? E quem seria eu de fato para julgar quem me culpa? É um ciclo. Um ciclo que precisa terminar de uma forma diferente da qual estamos habituados a ver: a morte de mais uma mulher. Mais uma mulher que cometeu o grande erro de amar, ou de precisar do teto que tinha, ou de não ter independência financeira, ou um milhão de outras situações. Esse mundo precisa mudar.