O garoto tentou agarrá-la à força e beijá-la, ela deu um soco! -613

Culpando a vítima e ensinando a vítima a se culpar. [por Stéphanie Paes]

613 – Outro dia aconteceu algo na minha sala de aula que me deixou chocada. Sou professora de uma turma do quinto ano do fundamental I, numa cidade da zona da mata norte em PE. Um dos garotos, recém-chegado na cidade, iniciou um “namoro” com uma das meninas da classe. Ele ainda não se acostumou com o tipo de reflexão que tenho feito com eles, sobre os papéis sociais dos gêneros e etc. Ele sempre se posiciona de maneira bem machista. Mas deixo bem claro pra toda a classe que ali temos um espaço pra expor o que pensamos e reconstruir, se necessário. Enfim, nessa história de namoro (ele tem 13 anos e a garota 10), ele a estava agredindo fisicamente. Fiquei chocada ao descobrir. Levei o caso à direção da escola. Sinceramente, eu esperava que houvesse omissão. Mas me surpreendi. A postura da direção foi de enfrentamento, e envolveu os pais na resolução do caso. Agora a mãe da menina vai levá-la todos os dias. Mas a mãe do garoto já está “anestesiada”, devido às muitas queixas sobre seu filho no decorrer dos anos. Ela diz sentir-se envergonhada por ele, mas não toma providências, até porque é vítima dessa estrutura patriarcalista, e sofre diretamente seus efeitos. Dias depois desse caso, ele aprontou de novo. Quando subimos (a sala fica no primeiro andar), uma das meninas se escondeu atrás da porta pra me dar um susto (ela sempre brinca assim, e nunca consegue me assustar – rs), mas dessa vez, ela que tomou um susto! O garoto tentou agarrá-la a força e beijá-la. Mas eu amei a reação dela (que só tem nove anos!): deu-lhe um soco na cara!!! U.u Levei os dois à direção. Lá ele ouviu um “bem feito” da coordenadora. Alguns meninos disseram que a menina tava errada, que devia ter me chamado. Mas eu expliquei pra eles que se todas nós agíssemos assim, os homens pensariam mais vezes antes nos violentar. A menina teve sua segurança garantida, e não foi punida. E se a escola tentasse, eu não permitiria. Quanto à família do menino… Decidi não esperar dela uma solução. Decidi orientá-lo diariamente, e no dia do enfrentamento ao abuso e exploração sexual infantil, levei relatos dessa página e compartilhei com eles. O município organizou uma passeata. Preparamos faixas e cartazes até sobre as cantadas-de-rua. Uma das minhas alunas foi vítima de abuso (dentro da própria casa), e no início, sentiu-se desconfortável com a situação, mas concluímos com o discurso de não-culpabilização da vítima. Vi um sorriso aliviado em seus lábios. Isso fez valer meu dia!!!