O homem parou e ficou me esperando – 776

776 – “Aconteceu comigo há uma semana. Estava indo para São Paulo e cheguei na rodoviária por volta da meia noite, tava sozinha mas meu namorado ia me buscar, o caminho que eu tinha que fazer do ônibus até a plataforma de desembarque era de uns 200m.
No caminho parei para esperar um pouco e fiquei encostada num murinho (eis que já ouvi algumas vezes que mulher parada sozinha à noite é sempre prostituta – a que ponto chegamos? Bom, mas era só uma observação). Estava lá carregando malas, cara de acabada e de repente um homem de uns 50 anos passou e não tirou os olhos de mim por uns 30 segundos, até diminuiu o ritmo e fazia aquele olhar que nós conhecemos muito bem (aquele olhar de superioridade que dá medo e pânico, nos coloca no chão e dá nojo), eu não tenho muita paciência e me irrito profundamente com essas coisas, então sem pensar muito mostrei o dedo do meio para o indivíduo. Me arrependi em segundos. O homem parou e ficou me esperando na frente do único elevador que eu podia pegar pra descer pro desembarque, ainda fez sinal me chamando com uma feição extremamente ameaçadora. Eu entrei em pânico, quase chorei, não sabia se chamava alguém, ligava pra alguém, sei lá. No fim saí andando muito rápido na direção contrária até ver que ele tinha sumido e só então peguei o elevador, ainda tremendo e morrendo de medo. Não sei se o homem iria apenas me assustar ou poderia agir de alguma forma mais violenta, só sei que a raiva que senti foi inexplicável, ainda mais de pensar que foi uma situação gerada apenas pelo fato de eu ser mulher e ele homem, que homens se sentem no direito de ameaçar e violentar mulheres todos os dias apenas pela simples condição da diferença de gênero e que nós, mulheres, vamos viver com medo e passar esse medo pras nossas filhas e netas… até quando?”