“O QUE VOCÊ PENSA QUE TE DÁ O DIREITO DE MEXER COMIGO?” – 1171

Sou professora de filosofia há quase seis anos. Todos os dias preciso pegar ônibus para ir ao trabalho e enfrentar o trânsito da minha cidade. Porém, como não posso me atrasar um minuto sequer para chegar à escola, por vezes preciso descer em uma parada um pouco longe e ir a pé um bom pedaço para não perder a hora. Em uma dessas manhãs (extremamente quente, por sinal) caminhava apressada, passando por carros parados no trânsito lento. Um desses, um Saveiro com uma logomarca de uma empresa (que infelizmente não me lembro qual é), era ocupado pelo motorista e um outro rapaz no banco do carona, aparentando no máximo uns 20 anos. O garoto se debruçou sobre a janela, cruzou os braços ali e ficou mexendo comigo, falando coisas ininteligíveis para mim àquela distância, mas que denotavam, pelas suas expressões, o conteúdo sexual que ele vomitava pra mim. Decidi ignorá-lo por um tempo, já que ele ficara pra trás, preso no trânsito, na esperança de ele se cansar, mas o fluxo trouxe-o novamente para perto de mim e ele recomeçou com as gracinhas. O motorista ficava rindo do que ele falava, conversavam alguma coisa, riam e o carona voltava a mexer comigo. Eu ainda tinha nas mãos o livro que lia dentro do ônibus e que, em minha pressa de descer e chegar à escola, não pude guardar na bolsa. O título dele passou pelos meus olhos por um segundo, um livro sobre Ética que nunca me canso de ler. Pensei rapidamente: que tipo de exemplo eu gostaria de dar? Um tanto enfurecida com o rapaz, virei-me pra ele e gritei, para que todos parados nos carros e nos arredores pudessem ouvir: “O QUE VOCÊ PENSA QUE TE DÁ O DIREITO DE MEXER COMIGO?”. O susto foi tão grande que o rapaz arregalou os olhos, calou e sentou normalmente dentro do carro, enquanto o motorista, tão chocado quanto ele, dava um risinho sem graça. Dois rapazes na porta de uma oficina, bem perto de mim, me aplaudiram quando passei por eles, claramente satisfeitos com a minha atitude. E ainda soltaram um sermão para os engraçadinhos no carro. Senti-me aliviada, nem mesmo o calor infernal daquele dia me incomodou mais.