O racismo parece ser um fator no teor das ‘cantadas’ – 815

815 – “Tenho 21 anos e desde muito tempo, como a imensa maioria das mulheres, sofri assédios na rua. Com a campanha “Chega de fiu-fiu!” vi muitas mulheres relatando casos de assédios e, novamente, como a imensa maioria das mulheres, eu já sofri a maioria dos casos relatados. Mas um fator me chamou a atenção.

Muitos dos relatos denunciavam homens assediando falando os mais comuns “Gostosa”, “Te chupo toda” e outros comentários abusivos sobre “bunda” ou “peitos” e totalmente sexuais. Já escutei isso antes mas percebi que ultimamente não escutei mais. O que escuto mais é “linda”, “boneca”, “princesa” e assovios. Nem quando estou de shorts escuto comentários tão explicitamente sexuais, já que “mostrar o corpo” é a desculpa usada para assédio.

Sou branca, caucasiana, “clarinha”, “branquinha”, de cabelo comprido liso, olhos claros, “delicadinha”, “femininazinha”. Ou seja, dentro do padrão europeu e de “feminilidade”. Sou vista como um bibelô, uma coisa feita para embelezar. Daquela beleza “correta”, branca, pura, inocente, comportada. Aparentemente, sou o exemplo de “mulher de bem”. Só que não tenho o direito de estar na rua. Por isso escuto assédios sobre como sou a “bonequinha bonitinha”.

Não sou negra. Não sou “da cor do pecado”. Não sou a “mulata fogosa”. Não sou sexualizada pela minha cor. Não tenho meu corpo sexualizado pela minha cor. Sou branca. Quando uso o mesmo shorts que uma negra não escuto automaticamente assédios explícitos sobre minha “bunda” ou minha pernas. Minha bunda e minhas pernas não são vistos como carne no açougue como os das mulheres negras são. Não escuto como queriam puxar meu “cabelo ruim” até alisar. Não sou vista como “mais safada”. Não sou “provocante” até quando estou de jeans e moletom. Não sou hiper sexualizada pela minha cor de pele.

Sou branca e bonitinha, para se apresentar à família. Não sou negra “morena” libidinosa.

Portanto, como “menina de família” devo escutar os assédios corretos. Sou um bibelô, não sou um ser automaticamente sexual. Devo ser insultada em como estou correspondendo as expectativas de “embelezar a paisagem” para os homens. Como um bibelô, um objeto na estante.

Já negras devem ser insultadas por serem “seres sexuais”, terem a “beleza sexual”, por serem “provocantes”. Devem escutar em como “despertam” a libido nos homens alheios. Devem escutar em alto e bom som como seu corpo é feito para o prazer sexual alheio. Automaticamente. Afinal, são “da cor do pecado”.

Moro numa região pouco próxima a uma favela, com a maioria da população negra. Na visão e no senso comum da sociedade classicista, racista e elitista essa região seria onde ocorreria os assédios, afinal, pretos, pobres e pedreiros que fazem assédios, não os classe média, brancos de terno na Paulista (esses fazem apenas “galanteios”, você mulher chata e paranoica é que não sabe a diferença). Pois bem, esses mesmos homens que falam “gostosa” para a negra falam “boneca” para mim, branca.

Foi vendo os relatos de assédios de conotação explicitamente sexual de negras que percebi, por experiência própria, que não os sofria pelo racismo velado da sociedade atuando até mesmo nos assédios. Por ser vista como “menina bonita” e não “menina provocante”. Esse padrão de beleza que dita a “beleza branca” como “elegante” e a “beleza negra” como “sensual”. Sei que não é uma regra e um padrão rígido, vi muitos relatos de mulheres brancas sendo assediadas com conotação sexual explícita. Mas essa distinção entre negras e brancas é muito, muito frequente – e muito preocupante.”