O taxista começou a me elogiar – 683

683 – “Preciso desabafar o que me aconteceu no domingo. Fui ao cinema com um grande amigo à tarde. Mas voltei para casa sozinha, de táxi. Sempre pego táxi e nunca tive problemas. Estava usando calça jeans e camiseta, nada que pode ser considerado “provocante”. Enfim. Entrei no táxi e senti que o motorista estava com um sorriso estranho para mim, não gostei, mas pensei que fosse coisa da minha cabeça e que não precisava me preocupar. Quando saímos com o carro ele começou a me elogiar. Me disse que já havia me levado, que sabia onde era minha casa. Falou onde era, e ele tinha razão. Eu disse que não lembrava dele e ele começou a me elogiar, falando que havia ficado impressionado comigo, que eu estava mudada, e mais bonita. Fiquei muito sem graça e comecei a falar do meu namorado (que mora em outra cidade) e a mexer no celular. Em um determinado momento vi que ele desviou o caminho da minha casa, o lembrei que era para entrar em determinada rua. Ele disse que iria pegar um atalho, que era mais perto. Eu já estava bem irritada, fechei ainda mais a cara. Em um momento ele me chamou de bebê, eu o mandei parar, ele perguntou se podia então me chamar de princesa. A irritação chegou às alturas e eu falei alto, irritada, que ele fizesse o trabalho dele, me deixasse na minha casa e não voltasse a falar comigo. Aí ele tomou o caminho correto. E ainda me cobrou mais caro, por que desviou o caminho. Nunca senti tanta raiva, medo e insegurança. Além da visão patriarcal de que a culpa era minha por ter voltado sozinha para casa. Que a culpa, de alguma forma era minha. Quando cheguei em casa fui falar com meu namorado, que me apoiou, mesmo por que ele também é bastante assediado, na cidade dele, por mulheres. Sim, mulheres o cantando na rua, passando a mão na bunda dele. Isso me surpreendeu a primeira vez que ele me contou. Enfim. Nunca tive tanto medo, me senti frágil e assustada. Indefesa.”