Odeio as cantadas, mas a psicóloga não me entende – 668

668 – “Bom, o que mais me irrita nisso tudo (o assédio, as cantadas) é o fato das pessoas não entenderem o seu lado, o lado de querer evitar essas situações e passar ‘ilesa’ ao sair de casa, parece que você está fora de si, que é uma louca. Nem os psicólogos, nem sua família (aqueles que deveriam te ajudar) entendem. Tá aí um relato que demonstra isso:  Tive alguns ataques de pânico e passei por maus bocados. Ainda hoje sinto ansiedade e um embrulho no estômago ao sair na rua. Certa vez antes de ir para a análise, fui ‘cantada’ três vezes no caminho e cheguei mal ao consultório, suando, tremendo, em pânico. Ao relatar a experiência, a psicóloga disse que o que estaria me incomodando era o fato de não ‘receber atenção em casa’ mas receber de desconhecidos que não faziam diferença em minha vida. Ela relacionou o incômodo ao fato de meu relacionamento não estar indo bem, pois o homem ‘que eu queria’ não me dava atenção como esses estranhos davam. Tentei explicar que não era isso, que me sentia invadida, mas sei lá o que houve, acho que o tempo acabou (pra variar, rs). Na volta para casa foi ainda pior, passei por dois grupos sentados na calçada, o primeiro de uns pirralhos ignorei, já ao passar pelo segundo não resisti, falei tudo que estava engasgado. “Vocês são iguaizinhos aquele grupo de pirralhos ali (apontando), não cansam não? Por que não respeitam as mulheres um pouquinho pra variar?”. Quando um deles fez menção de me responder, completei dando uma de louca mesmo “parecem um bando de cachorro no cio, por isso que são ignorados, não tem um pingo de amor próprio.” Não disseram nada. Ao virar a esquina me desarmei, caí no choro.   O pior é que sempre respondi desaforada, sempre me impus. Mas estou cansada de andar na rua de cara feia, “essa não sou eu” é o que penso, ou pelo menos: “não quero ser assim”. Sempre fui livre, gostava de andar sem destino, admirar a rua, as pessoas passando. Agora tenho que lidar com o medo toda vez que ponho os pés fora de casa. Estou cansada de criar mecanismos de defesa e acho que até me faz mal, a raiva gera uma descarga de adrenalina que traz à tona todos aqueles sintomas (que ainda tenho, mas desisti de tratar). O mais difícil pra mim é manter a calma, gostaria de dar uma resposta “à altura” e seguir meu rumo, mas não consigo, sempre me afeta. Tenho evitado ao máximo sair e quando saio tento fazer tudo o mais depressa possível, sei que estou errada nesse aspecto. Penso que a qualquer momento terei outro ataque de pânico, mas cansei desses psicólogos chatos. Até agora estou levando, espero que consiga me livrar disso um dia”