“olha aqui, sua puta, você acha que é melhor do que a gente? ” – 1012

1012 – O meu caso aconteceu há 13 anos atrás. Eu tinha 25 anos, morava no Centro de Niterói e estava fazendo um cursinho para a prova da OAB aos sábados no Centro do Rio, de 8h às 12h. Saí de casa por volta das 6h30 e usava uma calça jeans e uma camiseta branca justinha. Quando virei a esquina da rua paralela à rua da minha casa, dois caras começaram a me cantar: “gostosa!”, “delícia”, “que espetáculo!”. E eu continuei andando, na minha. Foi quando atravessei a rua e parei no meio, entre as duas pistas, pois o sinal acabara de fechar. Então, os dois caras surgiram novamente. Um se pos ao meu lado e o outro na minha frente começou a me xingar. Os dois estavam bem vestidos, eram caras “normais” e pareciam voltar de alguma balada, mas não senti cheiro de bebida nem nada, eles pareciam saber exatamente o que estavam fazendo. O da minha frente começou a me xingar: “olha aqui, sua puta, você acha que é melhor do que a gente? você , com esse teu cabelo mal pintado e essa cara de vagabunda, acha que é melhor do que a gente?” e eu tentando entender o que estava acontecendo, e ao mesmo tempo tentando sair daquela emboscada, mas quando ia pro lado, os dois se punham na minha frente novamente e esbravejavam ainda mais, literalmente me cercando. Eu só implorava: “me deixem em paz!”. E eles: “Você quer paz? a gente pode te dar muita coisa além disso”, e riram. Foi quando o sinal abriu e eu saí correndo, um deles ainda tentou me pegar pelo braço, mas eu fui mais rápida.

Entrei na estação das Barcas ofegante e trêmula, eu tremia da cabeça aos pés, Entrei na primeira embarcação que avistei e subi as escadas correndo, desesperada, e me sentei de frente pras escadas por onde subi. Foi quando vi que eles também entraram, sentaram nuns bancos à minha frente e me encararam rindo e cochichando de forma assustadora (as embarcações antigas tem assentos que ficam de frente para os assentos principais). Pronto, agora eu estava me dirigindo pra outra Cidade, distante da minha, e ninguém poderia me ajudar. Fiquei completamente em pânico e olhei ao redor pra tentar falar com algum funcionário da empresa, mas não consegui identificar ninguém. Foi quando vi um rapaz sentado sozinho e fui até ele, sentei a seu lado e praticamente implorei por ajuda. Contei a ele o que estava acontecendo e pedi pra ele conversar comigo como se fosse um conhecido meu. Disse que tinha namorado e não estava querendo dar em cima dele, mas que só ele poderia me ajudar (até porque a embarcação estava vazia) e liguei pro meu namorado e atual marido. O rapaz percebeu que era verdade porque os marginais não paravam de me encarar. Quando saímos da embarcação, os dois malditos pararam num dos pontos de descida do mergulhão da Praça XV e continuaram me encarando e cochichando entre si. Então, pedi que o tal rapaz me acompanhasse até a Guarda Municipal, que ficava ao lado da estação da Praça XV. Chegando lá, contei tudo aos agentes, e um deles me acompanhou até o meu curso, que ficava na rua Araújo Porto Alegre, bem distante da estação. Quando passamos pelo mergulhão, vimos que os dois bárbaros ainda se encontravam lá, me esperando, mas quando viram que eu estava acompanhada de um dos agentes da guarda municipal do RJ, desceram as escadas e sumiram.

Essa foi a pior experiência que já tive na minha vida. Eu não estava fazendo nada, não disse nada, apenas ignorei uma cantada de rua e fui agredida e perseguida porque não sorri, porque não fui receptiva a esse tipo de agressão. Não, cantada de rua não é elogio e sim uma verdadeira agressão à nossa honra e dignidade.