os três caras me cercaram, e tentaram me agarrar a força – 744

744 – “Em 2010, na loucura, resolvi fazer uma viagem pra Buenos Aires com uma amiga, decidimos passar dez dias e ficaríamos hospedada em um hostel. Tudo certo e arranjado, a viagem incrivel, conhecemos pessoas muito legais.  No terceiro dia de viagem, resolvemos ir pra uma balada em um bairro próximo ao que estavamos hospedada. Como estava total no clima de viagem, sequer me arrumei pra ir nessa festa, fui com a roupa que usei o dia inteiro, tenis e camisa, sem maquiagem, sem nada, não deu tempo, não estava afim também. No meio da festa um cara me chamou pra dançar, não tentou fazer nada, só dançar mesmo, conversamos um pouco, bem no inicio da conversa já soltou, assim como todos os caras com quem conversei durante a viagem toda, ” Ah você é brasileira né?”. Mas, esse cara foi muito tranquilo de verdade, não lançou nenhuma cantada, não foi vulgar, foi exemplarmente educado, como poucos durante essa viagem. Fui ao banheiro e quando voltei não encontrei nem o cara que estava conversando, nem minha amiga, continuei na pista dançando. Do nada sou abordada por um cara, de fato muito bonito, ele vem e me diz ” Hey, você é brasileira né? Meu amigo quer ficar com você!”. Eu respondo imediatamente que não, ele insiste e diz pra pelo menos eu conversar com ele, fala que o amigo é muito tímido, que me achou muito bonita, e blah, blah, blah, nisso aparece um segundo cara puxando o suposto amigo tímido.  O segundo amigo já veio tentando me intimidar e dizendo “Hey, você é muito bonita, dá um beijo no meu amigo, ele é muito tímido, te achou muito bonita”. Fiquei apavorada, porque os dois caras estavam em cima de mim, me cercando mesmo, disse que concordava em conversar sozinha com o suposto amigo tímido, desde que os dois saíssem de cima de mim. Eles “concordaram”, praticamente jogaram o amigo tímido em cima de mim, que simplesmente disse ” nossa você é muito bonita” e imediatamente já veio enfiando a língua na minha boca. Eu fiquei mais apavorada ainda, empurrei o cara e disse pra ele dar o fora. Não contentes com a situação, os outros dois amigos me cercaram outra vez e disseram “dá um beijo no nosso amigo, e depois dá um beijo na gente!”, meu coração foi na boca, suei frio, não sabia como sair da situação os três caras me cercaram, e tentaram me agarrar a força.  Consegui tomar um folego e sair daquela roda do horror, gritei com os caras! Encontrei minha amiga, que estava perto conversando com um cara. Chamei ela de canto e contei o que aconteceu, disse que queria ir embora imediatamente, ela pediu pra mostrar os caras pra ela, eles continuavam lá, como se nada tivesse acontecido, um deles inclusive me mandou um beijo de longe. Dai pra fechar com chave de ouro minha amiga solta na maior naturalidade:  “Ah, porque você não ficou com ele, ele é muito bonito! “- não consegui processar a informação na hora e respondi ” Gata ele é lindo mesmo, mas ele tentou me agarrar a força, os três são lindos, mas eles tentaram me agarrar, eu estou assustada, se você quiser ficar ai, tudo bem, mas eu estou indo embora”. Ela disse que tudo bem e que iria embora comigo. Depois desse ocorrido, não consegui olhar pra mais nenhum cara durante o resto da viagem, cada cantada que recebia me dava muito nojo, cada vez que ouvia “brasileira bonita”, ficava assustada. Sinto que me assusto um pouco até hoje, quando um cara chega perto de mim, não tolero receber nenhum tipo de cantada, fico extremamente agressiva, xingo o cara mesmo, faço cara de nojo.  Acho que esse espaço, com todas as leituras, me ajudou de alguma forma a perceber, quão violenta foi essa experiência, e como esta situação é tratada com naturalidade. Pelos caras que tentaram me agarrar, pelas pessoas que estavam a minha volta e nada fizeram, pela minha amiga, que ainda se espantou por eu não ter pegado o cara porque ele era muito bonito, e que durante todo o resto da viagem quando me mostrava um cara bonito, estranhava porque eu não dava a minima bola e ainda dizia que nem queria saber disso…  Enfim, foi tenso, além de estar na situação objetificada, havia ainda o estigma de ser a “brasileira”, ou seja na cabeça deles, fácil, tudo bem sair agarrando, cantando, olhando…”