ouvi um homem berrar: “Vou te chupar até esse verde virar roxo” – 962

962 – Sempre fui muito precoce, tanto física como mentalmente.

13 anos. Tinha medo de sair de casa. O feminismo era o que me dava forças para aguentar as cantadas que recebia ao ser obrigada a ir até o mercadinho da esquina para comprar pão. Sexta. Minha mãe decidiu que eu tinha que sair um pouco de casa, estava de férias e ficava trancafiada o dia todo no quarto, por semanas, com medo do que ouviria caso de lá saísse. Ameaçou-me: se não fosse até a loja de roupas comprar algo para vestir, pois era verão e eu precisava de roupas mais fresquinhas, ficaria de castigo por alguns dias.

A loja era perto de casa. No caminho, ouvi um homem berrar: “Vou te chupar até esse verde virar roxo” – meus cabelos eram verdes. A loja tinha vários pilares perto da entrada, que era completamente aberta. Os pilares estavam repletos de colares e afins, então fui olhar alguns. Minha mãe estava do outro lado da loja. Foi nesse momento que um grupo de homens passou pela porta, aparentemente bêbados, com seus prováveis trinta e poucos anos. Um deles gritou: “Ei, verdinha! Tá linda hein!” Fiquei com medo, e encostei as costas no pilar, me encolhendo para que não pudessem me ver. Então o mesmo homem gritou: “Não precisa se esconder, não! Não precisa ter vergonha”. Então saí de trás do pilar. “Olha só, apareceu a lindinha!”. Fui em direção ao lado da loja onde estava a minha mãe, esperando que ele fosse desistir. Naquele momento, reparei que alguns amigos dele me olhavam, fazendo gestos obscenos, e outros olhavam para a cara do que gritava, como quem, com um pingo de sanidade, sepultava a atitude dos outros. Mas, para a minha surpresa, assim que percebeu que eu estava “fugindo”, o cara entrou na loja e começou a me seguir. Os outros ficaram fora.

Naquele momento me senti um enorme saco de lixo. Tive medo, vergonha e raiva, muita raiva. Comecei a correr pela loja, até avistar a minha mãe. Abracei-a, e não vi mais o monstro.

Naquele dia, voltando para casa, me senti impotente, rodeada por inimigos. Sempre que um homem abria a boca ao passar perto de mim, sentia os pelos do braço arrepiarem. Me senti mercadoria.

Hoje, depois de alguns aninhos do ocorrido, apesar de cada vez receber mais e mais cantadas, graças a vocês, feministas, já consigo sair de casa de vez em quando. Obrigada pelo apoio, mesmo que ele venha de forma indireta.