Pedreiros assediavam todas que passavam na frente da obra – 673

673 – “Acaba de acontecer algo muito emblemático comigo, especialmente no tocante ao feminismo, ao assédio do qual as mulheres são vítimas nas ruas e as relações de poder entre os sexos. Na rua onde moro, quase de frente pra minha casa, tem uma obra que está rolando há uns 3 meses, ao menos. Uma obra grande, quatro casas sendo construídas de uma só vez. Do alto da obra os pedreiros vêem meu quintal e minha sala. Passei MUITAS vezes em frente à obra e ouvi as costumeiras “gracinhas” (que de gracinhas e elogios não têm absolutamente nada, CANTADA É ASSÉDIO). Alguns dos pedreiros chegaram a descobrir os nomes dos meus cães para chamá-los quando eu passava em frente à obra. Minha vizinha também foi assediada. Apesar de minhas fortes tendências a mandar homens escrotos enfiarem suas gentilezas do rabo, me mantive calada por MEDO: medo por saber que os pedreiros sabiam de toda a rotina da minha casa e que acompanham quem entra e quem sai daqui. Era uma sensação MUITO horrível, a de ouvir todo tipo de obscenidade e ter que ficar quieta, ter que baixar a cabeça, por medo. Mulheres que se identificarem com essa sensação, por favor, levantem a mão. Ao voltar do almoço, me deparo com todos os trabalhadores da obra na rua, um pai espumando de raiva do lado, o dono da obra do outro e uma adolescente nervosa entre os dois. Os caras mexeram com a menina (que é minha vizinha), que contou pro pai, que foi na HORA tirar satisfações com o responsável. O dono berrava com a peãozada, que se entreolhava sem-graça e resmungava que nunca tinha feito nada. O pai chamava os caras de moleques, de safados, de sem-vergonha. A menina, muda, olhava de uns para outros. Os peões juravam inocência. Meu sangue subiu ao ver aquele bando de marmanjos nojentos, sem hombridade para assumir seus erros ou, se inocentes, de coibir o comportamento absurdo dos outros, e comecei a gritar que era assim mesmo: que eles estavam, há meses, assediando boa parte das mulheres que passava em frente à obra — muitas vizinhas minhas que já tinham comentado o problema. Perdi o controle: comecei a chamá-los de moleques, de palhaços, comecei a perguntar onde é que tinha homem naquela obra pra assumir o que estava acontecendo. O dono ficou perplexo, o pai da menina ficou ainda mais puto, e nenhum, NENHUM DOS MACHÕES DA OBRA conseguiu me olhar nos olhos. Fui pra casa ensandecida enquanto o esporro continuava rolando na rua. Alguns minutos depois, o pai e a menina vieram me agradecer por ter confirmado o assédio, pois as coisas já estavam se encaminhando pro “deixa-disso, foi só um mal-entendido, sua menina está exagerando, era tudo brincadeira, o senhor não se altere.” O que mais me impressionou nisso tudo foi a minha incapacidade (e da menina) de me fazer respeitar. Não tenho credibilidade nem autoridade enquanto mulher: não imponho medo ou respeito, sou alvo fácil, não tenho voz. Para que algo fosse feito, foi necessário que HOMENS interviessem, se revoltassem por nós, ameaçassem agir. Senti-me impotente, passiva, vitimizada, coitada. E continuo de frente à obra, tendo minha rotina devassada por homenzinhos machistas, desrespeitosos e incrivelmente covardes, que sabem onde vou, quando vou e quando volto, numa cidade com índices de estupro estratosféricos e um longo histórico de desrespeito às mulheres. Sou apenas mais uma. E dizem que o feminismo não é necessário.”