“piranha, vagabunda, tá louca é?” – 824

824 – “De vestido e sapatilha, minha sobrevivência formal ao calor de Brasília, fui descendo à w3 em direção aos correios da 508. Em frente ao Espaço Renato Russo, há um sinal. É engraçado como de longe percebe-se o alvoroço que o estereótipo idiota de mulher-menina provoca naqueles que se intitulam machos. O sinal estava fechado e fui me preparando para responder o que viria. Do único carro esperando o verde do semáforo, vem a voz desconhecida mas já esperada dizer “vem cá, gatinha, ‘vamo’ dar um passeio”. E eu? Não sou obrigada -de abuso já basta o calor. Fiz do dedo ereto o mimetismo do falo egôcentrico e respondi o convite. A contra-resposta? Abriu a janela e pôs -se a gritar “piranha, vagabunda, tá louca é?”. Ser ou não ser, quanta dúvida, senhor! Com o semblante fechado, dei apenas mais uma olhada para ver se o homem-das-cavernas não tinha escapado à janela. Continuei mascando meu chiclete. Os Correios ainda estavam longe.”