Por que minha liberdade de ir e vir tem de ser uma guerra? – 1084

1084 – Acaba de me acontecer algo triste.

Estava caminhando na praia, como gosto de fazer todo dia ao pôr do sol, tranquila e sozinha, quando aconteceu essa situação que infelizmente não é rara. Em algum momento, já era escuro, passei por um grupo de rapazes e um deles resolveu me falar alguma lindeza que não chegou a atravessar minha carapaça de autismo voluntário. Sem me abalar, fui em frente e dali a alguns metros comecei a perceber que – sim, iria acontecer o que eu não queria – eu havia me deparado com um infeliz que tivera o cérebro devorado por um fungo a ponto de ele achar que era um esporte divertido abordar e seguir uma mulher passeando sozinha a beira-mar.

Ao perceber que ele vinha atrás de mim e que, sim, eu teria de lidar com ele, tomei a atitude que já tenho treinada para essa circunstância. Assumi a voz mais grave que sei fazer, encarei o sujeito e perguntei:

– Tá com algum problema, camarada?

A encarada feia não o desencorajou, ele continuou vindo atrás de mim, todo risinhos e besteirinhas. Percebi que teria de ser mais clara:

– Não, não venha me seguir! Nem tente.

Ele emparelhou comigo e foi me falando nhenhenhéns. Aparentemente não tinha processado o aviso – parece que o cérebro tinha mesmo sido comido por um fungo. Apesar disso, ainda me virei para ele e tentei argumentar:

– Por acaso alguém já te seguiu? Isso é super desagradável, sabia?

Como era esperado, na ausência do cérebro, argumentar não funcionou. E o pior é que eu já nem entendo o que ele queria de mim, me seguindo e falando um monte de bobagens. O que ele queria afinal? O que o sujeito quer que a mulher lhe diga numa situação dessas? Desesperada para me ver livre dele, levantei o dedo e falei, rosnei, rugi, sei lá:

– Dá meia-volta e se manda, estou avisando.

A isso ele respondeu:

– Ah é? Senão vai acontecer o quê?

Por coerência, pragmatismo ou impulsividade pura e simples, no instante seguinte eu parti pra cima dele. Isso nunca tinha me acontecido – eu achava que era tranquila e pacífica – mas parti pra bater e ele se esquivou de mim e só então resolveu se afastar, choramingando alguma coisa sobre “baranga” que eu não entendi mas achei bastante típico.

E eu continuei a caminhar meio perturbada e surpresa por ter ultrapassado um limite, que poderia ter terminado mal pra mim. Ele poderia não ser como qualquer mané que retrocede assim que percebe o risco de apanhar, e se ele tivesse revidado eu teria que descobrir o que fazer com a minha zero noção de defesa pessoal. E ele também não estava sozinho: tinha saído de um grupo para me seguir. Se os amigos dele resolvessem ser solidários, eu teria que correr.

Minutos depois, mais calma, comecei a perceber – já triste – que eu estava preparada para isso: afinal, já aconteceu outras vezes e continuará acontecendo. Apesar de viver ilhada na minha natureza interna meio alienígena-autista, eu sou obrigada a me confrontar com o fato de que sou uma garota vivendo a realidade das mulheres brasileiras: ouvir gracinhas todo dia, andar na rua sempre alerta, ter que se preocupar com o caminho, com as horas, com a roupa, conviver com a noção de que você será abordada ou seguida em algum momento; em suma, precisar administrar a dose diária de machismo que você irá receber. Eu tento desprezar, tento viver acima disso, segura na minha ilha de desatenção, mas quando acontece sinto subir uma raiva acumulada – a somatória de todas as vezes que já tive que passar por situações semelhantes – que há muito perdi a capacidade de lidar de cabeça fria. Percebi que desse tipo de circunstância prefiro sair fisicamente ferida a fugir amedrontada e humilhada.

Pensando nisso que acabou de acontecer há poucas horas, acho o acontecimento ridículo, do começo ao fim: é ridículo! Mas a conclusão que tiro é tenebrosa.

Por que minha liberdade de ir e vir tem de ser uma guerra?

Cristina Lasaitis