Pude ouvi-los rindo e zombando do pavor que me causaram – 671

671 – “Eu ainda estou me sentindo estranha. Estranha não, estou mal mesmo. É que ontem, tive mais um exemplo escancarado de quão vulnerável eu sou. De quão vulneráveis são todas as mulheres em uma sociedade machista e extremamente permissiva como a nossa. Eu estava saindo do metrô, mais precisamente da estação santana, quando um grupo de três rapazes entrou. Era mais ou menos 23:30, não havia outras pessoas por perto, e eu caminhava pelo corredor da estação rumo à saída. Até que um desses rapazes “decidiu” que poderia vir em minha direção, me chamar de “gostosinha”, colocar a mão em minha cintura e tentar me puxar para junto dele, me encurralando. Eu, por sorte, por susto e por raiva consegui me esquivar, empurrá-lo e comecei a gritar com ele de uma forma que nem eu imaginava que fosse capaz, tanto que os seguranças da estação foram até nós e fizeram com que eles acabassem não embarcando. Pude ouvir todos eles rindo de mim e zombando do pavor que me causaram. Quando enfim consegui tomar o rumo de casa, fiquei pensando como seria se eu não tivesse coragem de me defender e em quantas de nós já passaram por esse tipo de situação, nos mais variados locais e a qualquer hora. Mesmo eu, que não sou leiga em relação aos mecanismos de opressão que visam cercear a nossa liberdade, senti culpa. Por que fiz aquele caminho justo ontem? E me dei conta que essa é minha rotina e que dependo dela para me locomover. Me dei conta de que eu só queria chegar em casa e que nem sempre disponho de alguém para me acompanhar. De que eu vestia casaco fechado, jeans, tênis e estava sem maquiagem, ou seja, isso nada teve a ver com a minha roupa. Não “provoquei” aqueles covardes nojentos de merda. Essa bosta não foi culpa minha. Só compartilho isso aqui hoje porque este é o mais acessível espaço que tenho para me expressar. Não quero que ninguém fique com pena de mim, venha me dar conselhos ou concorde comigo.”