Quando é o próprio marido – 1227

1227 –  [Trigger warning]

ela e o marido deitam para dormir.

o marido começa a acariciá-la e ela diz que não. ele insiste e ela continua dizendo não. quanto mais não, mais insistente ele fica até que uma força bruta surge entre os dois. puxões dali, agarrões daqui.

ela não sabe mais o que fazer para ele entender que ela não tá afim.

ela empurra, fala não, esquiva, mas ele ri e continua.

ele consegue arrancar a camisola dela a força.

ela então cede. se deixa levar, afinal, ele é seu marido.

mesmo sabendo que aquilo era errado, que aquilo tudo estava errado, ela cede.

por medo.

por medo das crianças acordarem. por medo de magoar o marido. mesmo sabendo que desse jeito não estava certo.

engoliu o choro. se sentiu vulnerável. se sentiu fraca. sentiu medo do marido. do companheiro de tantos anos.

ficou meses sem conseguir sentir vontade de transar. o tesão que antes existia deu lugar ao incômodo, ao nó na garganta.

ela não conseguiu contar a ninguém.

não queria acreditar que tinha sofrido violência por parte do próprio marido, o pai dos seus filhos. um pai tão amoroso.

a vida voltou ao normal. e ela quase esqueceu.

esquecia durante o dia e se esquivava dele a noite. fingia dormir cedo, ia deitar só quando tivesse certeza que ele estava dormindo, usava a menstruação como desculpa.

mas meses depois, durante uma discussão, ela verbalizou.

com o próprio marido.

e ele?

só abriu a boca para dizer, em tom ríspido e acusador, que não a procuraria mais. que estaria à disposição caso ela quisesse, mas que não faria mais nada.

só.

acabou a discussão e ele foi dormir.

conseguiu dormir.

ela? ela dormiu no sofá. não conseguia ficar perto dele.

e chorou a noite, em silêncio.

pela violência. pelo descaso. pelo machismo enrustido em um bom pai.

pelo desamparo. pela decepção. pelas escolhas. pelos caminhos. por não poder voltar atrás. por, talvez, não conseguir mais deixar pra lá.