Quando ele não vem me ver, bebo, me desespero, me vendo – 1002

1002 – Aos dezesseis anos, tinha um blog. Um blog que era muito mais verdade que mentira, hoje posso dizer com toda a certeza.
[o texto introdutório dele era esse: NÃO ACREDITE EM NADA DO QUE LER.
É tudo não-verdade, mas nada é mentira.
Hoje reli alguns dos textos e pensei como todos são uma descrição de abusos emocionais e sexuais vividos. O interessante, também, foi reler os comentários e perceber que eu era culpada até mesmo pelos meus amigos.
O texto abaixo é o que mais retrata como eu me sentia.

“TERÇA-FEIRA, 5 DE FEVEREIRO DE 2008

Que entre o próximo

É isso, sou uma puta; uma putinha barata, uma meretriz, uma cortesã. Sou paga com um mínimo de atenção – tesão seria a palavra extata, mas o tesão não é meu – ou bebida alcóolica.
Qualquer babaca que me chamar de linda ou outro apelidinho bonitinho me leva para a cama. Me sinto útil, mas inútil; o que faço, qualquer outra faria, e até melhor. Mas e daí?! Fui notada pelo menos por alguns minutos, fui a “escolhida” – a trouxa que topou transar com um sujeito asqueroso e repugnante.

Sou um lixo, um objeto descartável, como aquelas máquinas fotográficas que só tiram uma foto, como um chicletes: saliva um pouco e depois perde o sabor. Lixo.
Sou invisível; sou apenas um buraco ambulante -aberto vinte e quatro horas por dia-. Diga “Oi, meu bem, quer beber alguma coisa?” que minhas roupas já estarão no chão.
Não compensa. Doi, sangra, machuca. O suor (dele) se mistura com as (minhas) lágrimas e o (seu) esperma com o (meu) sangue. Uma imagem poética, para quem não participa. Mas eu repito; me contento momentaneamente com aquele “Anitinha, meu neném”.
No dia seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte é só remorso. No entanto, ninguém se importa.
Há aquele cliente costumeiro. Não digo freqüente, mas é aquele me procura sempre que não há mercadoria melhor disponível. É ele. E é por ele que tudo começa. Quando ele não vem me ver, bebo, me desespero, me vendo. É por ele. É para ele me notar, mas ele não nota; mais suor, mais lágrima, mais esperma, mais sangue.
Com licença, a meretriz tem que trabalhar; que entre o próximo.”

A resposta de alguns amigos:

“Anita, sai dessa.Isso não é vida.
E principalmente, se vier nova vida aí sim que vai ser lágrimas e sangue sempre.
Não justifica a culpa dele por vc fazer o q faz.
A culpa dele termina na culpa dele.
Não chega até onde começa o outro ser.”

“Oh, Anita já enxergou a causa de sua ‘revolta’, mas mesmo assim, se sentir um Lixo só pq é invisível a pessoa que gosta ñ é desculpa, isso é falta de valor próprio e muito lastimável…
Mas há muitas ‘anitas e joãos’ nessa vida… ”