“Que delicia! Perai morena, fala comigo”(Eu tinha 11 anos) – 1153

Oi, meninas. É a primeira vez que escrevo mas sempre acompanhei a página. Sempre me considerei do tipo de menina se atrativo nenhum. Aquela que passa despercebida sabe? Eu tenho 19 anos, 1.57m de altura, 52kg. Sou aquele tipo que não é nem magrinha nem gordinha, o meio termo.

A primeira situação de medo que passei foi aos 11 anos. Moro com minha mãe em uma cidade do interior do RJ, onde as pessoas dizem que ainda podemos andar tranquilos na rua porque a violência ainda não chegou aqui. Continuando, eu tinha cerca de 11 anos e fazia curso de inglês no centro da cidade, mas em uma rua mais “deserta”, por isso minha mãe sempre me buscava e levava, sempre teve esse cuidado. Mas em um determinado dia, ela não pôde me levar (não lembro o motivo) , mas como ainda era dia (era por volta de 17h) e o centro estaria movimentado, ela me deixou ir sozinha.

Lembro muito bem, eu que já não sou mt alta agora, com meus 11 anos mt miúda, entrando na rua do curso e um cara que devia ter seus 30 e poucos anos me olhando com aquela cara nojenta, expressão que infelizmente não foi a última vez que vi. Passei por ele e ele começou a falar coisas do tipo “que morena gostosa hein. Que delicia. Perai morena, fala comigo”. Eu tinha 11 anos! Era uma criança e estava visivelmente assustada com aquilo! Passei andando muito rápido, queria correr mas não consegui.

Depois daquele dia passei a ter muito medo de andar sozinha e com isso a MINHA expressão mudou, fiquei mais “agressiva”. A partir daquele momento me fechei e até hoje as pessoas sempre comentam “Nossa, fulana, você anda sempre com a cara fechada, de brava”. Ando assim pra passar o recado: Não mexa comigo.

Mesmo andando assim, parece que os homens não entendem. A situação mais recente de assédio que passei foi ontem. Estava com minha prima e uma amiga dela, que regulam idade comigo, indo para um bloco de carnaval. Eram 14h, estava um sol danado e estávamos vestidas pra enfrentar o calor: short jeans (o de nenhuma era curto), regata e um tênis confortável pra aguentar as várias horas em pé. Estávamos no lado da calçada que tinha sombra e vimos um bar logo a frente. Tinham dois homens com aproximadamente 50 anos sentados e eu já imaginei que ia me estressar, mas como eram só dois e se atravessássemos íamos ter que ficar no sol, passamos por eles. Assim que chegamos mais perto, um dos homens comentou alguma coisa com o outro que estava de costas e ele virou pra nos olhar. Fechei a cara imediatamente. E quando passamos por eles soltaram “Noossa, que lindas. Maravilhosas” sempre com aquelas expressões nojentas, como se fôssemos um bife andando no meio de leões. Quando eu escutei as gracinhas olhei bem pra eles e fiz cara de nojo. Nojo mesmo, olhei como se estivesse vendo a coisa mais asquerosa do mundo. Mas continuamos andando e quando eu me virei pra frente de novo escutei um “Que menina mal educada fulano. Você viu?” em tom de indignação! Como se fôssemos obrigas a fazer cara de quem está gostando ou até mesmo agradecer o “elogio”!

 

Impressionante como existe homem que acha que a mulher realmente tem que ser submissa e aceitar esse tipo de coisa. O que mais me entristece é contar essas situações pra minha mãe e ouvir da boca dela “Ah, você sabe como é homem né. É o instinto deles. Pra eles mexerem com certeza é porque tem mulher que dá confiança. Quando for assim, você passa por outra rua, atravessa para a outra calçada”.