Que gosto amargo a impotência deixa na boca! – 1278

1278 – A raiva queima no estômago como um refluxo.

Que gosto amargo a impotência deixa na boca!

Nos 40min de viagem até em casa, enxuguei com a barra da camiseta qualquer lágrima que insistisse em correr pelo rosto e me perguntava: o que foi que eu fiz de errado?

Foi minha roupa? Mas eu tomei o cuidado de sair de calça jeans e camiseta. Nem sandália eu coloquei. Foi sapatilha. Eu ignorei o calor de 35 graus!

Foi o lugar onde eu estava? Mas a parada de ônibus era da frente de um colégio. Eu precisava do meu histórico escolar para tentar fazer matrícula na faculdade.

Não.

Foi porque era uma mulher sozinha.

Foi porque eles estavam de moto.

Foi porque eu respondi. E eu respondi porque já tive o bastante dessa violência.

Não bastou o cara no banco do carona do caminhão que gritou “dá mais uma puxadinha, dá” enquanto eu ajeitava minha roupa na frente de casa, um outro dia. Ou então o “oi, menina” sussurrado por um estranho enquanto eu caminhava para casa com as mãos no bolso do moletom em uma rua vazia.

Além disso, ainda teve o idiota de moto, que nem mostrava a cara, escondida pelo capacete, enquanto eu só tinha à mostra os braços e o rosto. Gritar uma obscenidade de cima da moto é seguro. Ele não tem que me encarar. Não precisa lidar com meu olhar de nojo. Nem sequer precisa mostrar a maldita cara.

Levou o mundo pra levantar o dedo do meio pra ele. Juro, vesti toda a minha coragem por cima do jeans e camiseta e respondi à mesma altura. De longe, e com uma grosseria.

Eu achava que tinha minha armadura por sobre a pele, quando passou o outro. O amiguinho do primeiro, que vinha atrás, também na moto. Gritou pra mim “é puta”. Não tinha mais ninguém na parada. Era pra mim.

Ele nem me conhece. Não possui motivos pra me xingar. Bem, exceto que eu respondi à violência do outro, e por isso esse daí vem e me agride de novo. Do mesmo jeito.

Dolorosamente, eu percebi que não há armadura nenhuma para me salvar – nem coragem, nem jeans, nem aço.

E veio um carro buzinando. E outras motos atrás.

Eu pensei que só apedrejassem mulheres no oriente médio. Não achei que faziam isso em Porto Alegre.

Ataquei o primeiro ônibus que veio, sem olhar qual era. Embora não estivesse cheio, só havia mulheres dentro, exceto pelo motorista e pelo cobrador.

Minha vontade era contar pra alguém. Pra todas elas. Imaginei-me discursando, como se fosse Lisístrata, para que nenhuma delas se sentisse afetada por isso como eu estava. Para que nos uníssemos. Mas não falei. É claro que não.

Escrevi, ao invés. Ia postar na internet, ou mandar pra alguém pelo Facebook. Mas não deixei que lessem. Não mostrei, nem falei nada.

A gente nunca fala.