“Quer uma carona pra escola, princesa?” – 964

964 – Tinha 13 anos e estava, como de costume, andando para a escola através de uma rua que seguia o contorno de uma pequena praia do Rio de Janeiro. Era segunda-feira e os quiosques da praia tinham festas infernais no sábado e no domingo à noite.

Vindo em direção oposta à minha pela rua deserta, um carro com 4 homens entre 20 e 30 anos, provavelmente “virados” da festa da noite anterior e visivelmente bêbados, parou um pouco à minha frente. Meu coração acelerou. O que estava ao volante me olhou de cima a baixo, perguntou: “Quer uma carona pra escola, princesa?”, enquanto os outros também me olhavam da mesma maneira constrangedora.

Na hora, eu não me dei muita conta do que estava acontecendo e muito menos do que podia acontecer, não cheguei a apertar o passo e muito menos esboçar uma reação – ainda bem, afinal, sabe-se lá o que teria acontecido se eu tivesse reagido. Apenas fingi que não notei, principalmente para mim mesma – vim a saber depois que essa é uma reação comum diante de uma situação traumática. Continuei andando semi-consciente da situação, até ouvir o carro se mover e ir embora.

Quase seis anos se passaram. Ocasionalmente, ainda lembro do terror que senti logo depois do incidente, relembrando inconscientemente todas as notícias sobre estupros em gangue e toda a criação amedrontada (talvez com razão) incutida em mim pelo meu pai, indagando se fariam o retorno para me puxar pra dentro do carro e me violentar, sentindo vergonha da maneira como me olharam, apertando o passo desesperadamente.