“se eu te pego, hein, delícia” – 1082

1082 – Hoje venho aqui pra contar pra vocês uma situação engraçada que passei voltando do trabalho. Já digo que não tenho preconceito contra pessoas que estão nessa profissão que eu vou falar, tá. Sei que a maioria aqui é cabeça aberta, mas sempre tem um que entende errado. Falei o que falei pra diminuir o cara MESMO, porque era a arma que eu tinha no momento.

Eu sou a menina que escreveu o relato “mulheres, reajam”, que super ajudou muita gente que disse que gostaria de ter minha coragem e tudo o mais. Fiquei feliz, porque finalmente as mulheres estão parando de baixar a cabeça.

Enfim. Todo mundo sabe que eu já saio preparada na rua, como se estivesse entrando numa batalha, com frases feitas na cabeça, preparada pra agressões físicas e tal. Acreditem, já passei por situações horrorosas e aprendi a reagir na força. Sou apta à filosofia “fazer justiça com as próprias mãos” [na verdade isso se chama autodefesa] e não tô nem aí. Ando com canivete na roupa, sempre preparada pra me proteger. Infelizmente gostaria de sair na rua sorrindo, sem me preocupar com as coisas, mas tenho que fazer cara feia pros caras se assustarem com a minha confiança e nem olharem pra mim. Vocês entendem isso, eu sei.

Cinco horas da tarde, eu cansada indo embora do trabalho depois de um dia cheio e ainda tendo que responder a todos os contatos visuais dos escrotos diários (faço cara de nojo e olho da cabeça aos pés com cara de ‘aff, olha pra você, meu filho’, a maioria fica sem graça, com a confiança abalada, e para de olhar). Quando finalmente percebi que não tinha mais nenhum homem vindo na minha direção, baixei a guarda por um segundo e respirei aliviada. Um minuto de tranquilidade nas ruas é o que eu sempre busco ter durante minhas caminhadas por São Paulo.

De repente, vi um moleque de uns 16, 17 anos no máximo vindo na minha direção. Ele me olhava. Eu já comecei a olhar de volta com o olhar firme preparada pra mandar tomar no cu. Ele era vendedor de icegurt. Sabe esses tiozinhos que ficam com o carrinho de icegurt na rua tocando sininho? Pois é.

O moleque botou a porra do carrinho na minha frente e eu parei. Olhei pra ele já com um sorriso no olhar. Aí ele: “se eu te pego, hein, delícia”. Assim, no meio da calçada, como se dizer uma coisa dessas não fosse NADA. Eu tive um ataque de riso no meio da rua. Ataque mesmo, de doer a barriga, de apontar dedo na cara e não conseguir parar de rir. As pessoas que tavam passando pararam pra ver o que tava acontecendo, mas muitas mulheres entenderam de cara que o moleque tinha acabado de me assediar e fecharam rodinha, sabe, bem dessas que ficam esperando o barraco começar e começaram a rir também.

Tadinho, ele achou que teria chance. Quando consegui respirar, falei bem alto “CALA A BOCA, MOLEQUE, VOCÊ VENDE ICEGURT,!” seguido de um “CÊ NEM TEM PELO NO SACO AINDA E JÁ QUER DAR DESSAS, MEU FILHO? SE LIGA!”, e nisso ele abaixou a cabeça e tentou sair do meu caminho, MAS EU NÃO DEIXEI! Fiquei na frente dele interrompendo a passagem, ele tentava passar pela esquerda, eu entrava na frente; pela direita, eu ia pra direita também. Falei pra ele “tá se sentido bem? gostoso não deixar passar, né? tá humilhado? quer sair daqui? tadinho! tá sentindo a porra do constrangimento que eu sinto toda porra de dia quando um lixo que nem você aparece pra me falar merda?”.

Pasmem, eu fiz o moleque quase chorar e pedir desculpa. “D-d-d-esculpa…” e fez uma cara de quem implora pra poder sair dali. Quando ele passou por mim, gritei bem no ouvido dele: “VÊ SE PARA DE MEXER COM MULHER NA RUA, SEU FILHO DA PUTA!” e ele foi embora com o rabinho entre as pernas.

Esse daí já eduquei sem nem precisar dar uma porrada no meio da cara. Esse daí vai pensar mil vezes antes de fazer isso de novo. A-DO-RO humilhar quem merece. 🙂