se eu te pego te arregaço … – 758

758 – “Até encontrar essa página e me deparar quantas pessoas sofrem com o mesmo e repudiam esse mundo machista, onde essa maioria pensa mais pelo pinto do que com a própria cabeça, foi de certa maneira um alívio, já não estou mais tão sozinha. As condições de ser mulher nesse mundo são deprimentes. Digo isso pois eu não tenho apenas UM caso pra contar, são milhares, pois todos os dias, é pisar o pé na rua, já começam os bombardeios incessantes e nojentos, de buzinas e alguns ” se eu te pego te arregaço …” Devo dizer desde que me lembro e que me veio a consciência do que são esses atos, eu comecei a passar por essas situações e piores aos 09 anos, um deles é quando eu ia para loja da minha mãe todos os dias pois não tinha aonde ficar, e ao fundo da loja tinha um lote onde alguns homens trabalhavam, pelo jeito as paredes não impediam que se escutasse o que eu e minha mãe falava lá dentro, pois foi quando eu descobri que ao ir me arrumar para ir a escola, um muleque de 17 anos me espionava a tomar banho todos os dias pela janela que dava para o lote deles, eu fiquei tão triste e tão traumatizada com isso (eu só tinha 9 anos, meu deus, e alguém se deliciava com isso, insano) e o pior de tudo é que minha família ria quando contava essa história para os outros, e eu me sentia culpada e tão envergonhada, que demorei um tempo pra esquecer a cara daquele merda a me olhar. O outro caso que tenho para contar, é o que eu considero o mais difícil pra mim, pois demorei um tempo para entender que ”aquilo” ( não se denomina ser humano) foi um molestador, eu tinha 11 anos e pegava ônibus sozinha para ir para escola, eu nunca passei sufoco até a chegada de um cara que eu nunca tinha visto antes pegar aquele ônibus, creio que ele tinha mais ou menos 30 anos, ele começou a sentar ao meu lado, e foi com a chegada dele que comecei a sentir alguma coisa ( diga-se mãos) me tocando de lado tentando pegar na minha bunda, eu olhava de lado pra ver o que era, ele disfarçava, fingia arrumar a calça, então tive medo, vergonha, nojo, raiva, culpa, pois passei por isso por algum tempo pois ele me perseguia no ônibus para sentar do meu lado, quando eu via que era ele chegando meu coração doía, eu não tinha coragem de me mover e ao menos de entender aos 11 anos o que estava me acontecendo, e com 11 anos desejava que alguém sumisse com aquele homem. Sempre fui quieta, tímida, medrosa, e tudo isso me atormentou muito, tentava encontrar forças pra dizer para aquele homem nojento parar, não consegui. Demorou anos para entender que tudo que me aconteceu ou o que assédio e as agressões verbais que hoje me acontecem, não são culpa minha.  Anos depois quando enquanto eu desabafa com uma pessoa sobre não conseguir andar em paz na rua, ele me disse o seguinte: ” você tava de calça skinny?” Eu disse que sim pois gosto de calça um pouco mais colada no tornozelo para usar com tênis, e ele me disse ” então a culpa é sua, você pediu para chamar atenção com a calça colada” Fiquei tão revoltada, quer dizer que não posso nem mais usar uma calça que eu gosto que eu estou pedindo para passar a mão ou me ”comer” com os olhos e bocas sujas? Então cheguei a um ponto da minha vida e no auge da minha juventude, de me esconder mais ainda com as roupas (pois nunca gostei me mostrar) mudar meu jeito de andar e fechar totalmente a cara para conseguir andar na rua um pouco mais em paz ou evitar que coisas do tipo voltem a acontecer, o que muitas vezes é em vão. Criei uma coragem dentro de mim e ao mesmo tempo uma desconfiança maior com as pessoas, nunca se sabe da sua índole e intenções, pois nem crianças são poupadas. A luta é infinita, a sociedade está impregnada de maus exemplos, isso não está certo, ri disso e aceitar não é a solução, e quase impossível mas determinei que não deixarei essas coisas acontecerem, calada, e não só comigo mas com as pessoas ao meu redor também, todo cuidado é pouco, e toda forma de se exigir respeito, decência e humanidade do próximo, necessária.”