Sei que não deveria me sentir culpada – 795

795 – “Hoje usei um vestido bem levinho e que marca as curvas do meu corpo para ir a um compromisso simples. Quando desci do ônibus percorri um caminho de aproximadamente 300 metros, o suficiente pra sentir vergonha da roupa que usava.

Vários homens passavam em carros, ou cruzavam comigo, me chamando de todos esses termos nojentos que eles julgam por ‘elogio” ou me olhando com olhares que me desnudavam mentalmente. Todo meu feminismo não foi suficiente pra me tirar desse conflito interior. Me sentia mal pela roupa que usava e por ela chamar a atenção a este ponto. Comecei a me amuar, tentar parecer feia. Me enverguei, joguei o cabelo no rosto. Eu queria sair dessa situação de qualquer forma. Quando entrei na faculdade, parecia outro mundo. Ninguém me olhava com esse olhar nojento, apenas nos olhos, ou rapidamente, pra soltar um singelo ” vc está bonita”. Quanta diferença! Lá, me ergui e mantive minha conduta de cidadã com direitos iguais e respeitada, como deveria ser.

Ao sair de lá, me deparo, novamente, com essa realidade machista desprezível. Andando por um bairro, avisto um grupo de homens que já olhavam em minha direção sorrindo. Bate aquele desespero! A rua está movimentada, ainda é de dia, eles não farão nada comigo (pelo menos fisicamente), mas olharão daquele jeito, falarão algo de cunho sexual, vomitarão todo seu vocabulário machista em cima de uma garota indefesa, que nos faz querer entrar no primeiro buraco.

Dito e feito! não dava pra atravessar (eu nem deveria, é meu direito, pô!), antes de chegar já ouço coisas do tipo “abram caminho”. Me amuo novamente, sofro por antecedência os comentários posteriores a minha passagem, que intencionalmente chegarão aos meus ouvidos. E chegaram! sendo um dos mais leves “Ô, lá na minha cama”.

Sei que não deveria me sentir culpada por usar determinado tipo de roupa, mas no momento em que sou assediada toscamente assim, só consigo pensar em como eu gostaria de estar com uma burca, o que não impede abusos de homens estúpidos como esses, mas é mais fácil jogar culpa na mente doentia deles. A sociedade sempre nos “ensinou” a sermos estupradas, ao invés de ensinar esses animais a não estuprarem. Acho que ainda carrego um pouco disso dentro de mim.”