Sério, eu só queria existir em paz – 765

765- “E eis que estou andando na Rua da Carioca, indo encontrar uma amiga para almoçar, feliz e contente e, de repente, um BABACA (aham, em caixa alta) fala alguma gracinha escrota pra mim que não registrei e tenta me dar um beijo na bochecha. Ele não conseguiu porque rapidamente eu me virei, mas ele estava perto o suficiente para que eu ouvisse o barulho do estalo do beijo ainda que estando com fone de ouvido. Acho que nunca cuspi tanto palavrão por segundo (salvo em uma outra situação semelhante que outro dia conto aqui). E, instintivamente, meu braço que estava mais longe do indivíduo já estava levemente flexionado e as mãos fechadas… o que é bem ridículo, porque nunca soquei ninguém na vida. Certamente se ele tivesse encostado em mim, não seria mais virgem de socos na cara dos outros nesse momento e teria me machucado mais que ele. É revoltante tanto abuso e é muito triste não poder andar na rua sem ser desrespeitada. E por que isso acontece?! Por que eu sou mulher. Ponto. Esse imbecil deve achar que estamos na rua simplesmente para desfilar para ele. O pior é que sabemos que não é um caso isolado. Nós, mulheres, somos diariamente desrespeitadas seja na rua, no trabalho, em casa… o machismo afeta diariamente a vida de todas nós. Ontem mesmo, ao caminhar para o ponto de ônibus, vi um garotinho passando de bicicleta por uma menina e tentando puxar o cordão dela. Por sorte ele não conseguiu e ela não se machucou. Um pouco mais à frente, vários engravatados distraídos usando seus smartphones. Por que, em meio a tantas pessoas com utensílios mais interessantes do que o cordão da menina, ela foi escolhida pra ser a vítima? Ora.. simples.. esse garotinho já aprendeu que assaltar mulher é mais fácil. .são mais fracas fisicamente. E somos mesmo. Mas além de tudo que se vê por trás desse tipo de roubo ( desigualdade social, educação falha, etc) por mais que se queira ignorar, o machismo está lá também. Hoje quando contei meus casos de abuso sofrido (sim, foi.um abuso.. só que é tão comum esse tipo de coisa que aprendemos a ver como natural e lidamos com ele todos os dias), uma amiga, bem intencionada, veio me dizer que gritar não é o melhor, porque reforça o comportamento do imbecil. Mas peraí.. eu reforço? Até pra isso tenho que seguir regras?! Não! O que reforça é o machismo, NUNCA somos nós. Gritar foi meu reflexo, meu instinto de sobrevivência (sim, porque nos sentimos ameaçadas nessas situações). O erro é esse tipo de situação acontecer. E é muito triste vivermos com medo, acuadas, seguindo regras sobre como agir, como nos vestir, por onde andar a que horas e com quem. Sério, eu só queria existir em paz.”