Sofri vários abusos durante a infância – 2050

Foram inúmeros abusos e tentativas de abusos durante a minha vida. Desde primos, filhos de amigos do meu pai, a pessoas do trabalho, sem contar os abusos diários que toda mulher passa no ônibus, na rua então não sei por onde começar. Talvez pelo começo e pelos mais “incomuns”. Não me lembro a idade exata que tinha quando aconteceu, mas eu e minha irmã éramos bem pequenas quando começou. O primeiro que me lembro foi uma tentativa. Eu e minha irmãs fomos salvas pela minha mãe, que chamava para ficarmos junto a outras pessoas durante uma festa que meu pai dava em casa para amigos do trabalho. Ela nos gritou poucos minutos após eles pedirem que tirássemos a roupa.

A segunda vez, aconteceu na casa da minha avó. Meus dois primos, darei o nome de X e Y, chamaram para brincar no terreno baldio que havia ao lado da casa dela. Algumas primas desconfiadas negaram a princípio, depois estávamos todas lá. Eles pediram para que abaixássemos as calças e tenho uma vaga lembrança daquilo, pois era muito pequena. Lembro de um tio gritar por cima do muro e saímos correndo de la.

Na terceira vez, lembro de X ameaçar que iria contar para os meus pais o que aconteceu no terreno baldio se eu não entrasse com ele no guarda roupa vazio que havia na casa da minha avó. Eu entrei e lembro que ele passou a mão em mim e colocava o pênis entre as minhas pernas. Até então eu nunca entendi porque garotos pediam para que eu abaixasse a calça e o que era aquilo no armário. Achava que era um tipo de brincadeira. Meus pais não falavam sobre isso conosco. Fui entender, mais ou menos, na quarta vez que aconteceu quando duas primas e um primo da família do meu pai, chamarei de A, B e C dormiam lá em casa e ficamos vendo tv até tarde. Acabamos assistindo um programa chamado Cineprivê. Depois disso meu primo B ficou se esfregando em mim a noite toda.

Na quinta vez que me lembro, fomos para o quarto “brincar” do que tínhamos visto na TV. Em uma cama ficaram minha irmã, A e C e na minha cama eu, B e outra prima D. Lembro que B passava a mão em mim e então encostou o pênis na minha vagina. Ele mesmo não sabia o que fazer. Durante o banho minha irmã me perguntou o que aconteceu. Quando contei, ela me disse que era assim que as pessoas faziam bebês. Que eu poderia estar gravida.

Fiquei desesperada, comecei a chorar e contei tudo para minha mãe. Lembro que isso gerou uma confusão. Então, A, B e C tentaram armar para que eu ficasse como culpada. Em uma conversa disseram que eu ia pagar por ter contado. Então, eles foram nos visitar outra vez, eu estava dormindo no chão da sala. B chegou, deitou comigo e ficou se esfregando em mim e passando a mão em mim. Pegou a minha mão e colocou nele. Lembro de meu pai e tio perguntando o que era aquilo. Eu disse que eu estava dormindo. Disse: papai o senhor me deixou dormindo aqui, ele que veio e deitou comigo. Isso gerou briga entre meu pai e meu tio, irmão dele. Mas fiquei feliz de meu pai dizer: eu acredito na minha filha. Depois disso, essas brincadeiras felizmente pararam pelo menos com os primos por parte de pai.

Então, um dia, minha mãe pediu para que eu fosse buscar um ingrediente na casa da minha tia para o jantar. Quando cheguei la, so estava o meu primo X. Ele me disse para ir para o quarto dele e eu disse que não. Que tinha que voltar logo. Então, ele me empurrou para o quarto e disse: nós vamos fazer uma coisa e você não pode contar para ninguém. Se você contar, eu conto para todo mundo o que aconteceu no guarda roupa. Mas eu já não era tão inocente e disse que ele poderia contar para todo mundo que eu não ia fazer o que ele queria. Voltei para casa com o ingrediente, feliz por ter reagido, mas triste porque parecia que isso nunca ia acabar durante a minha vida. Resolvi contar. Quando meu pai se reuniu com meus tios e X disse que já tinha abusado de mim na casa da minha avó dentro do armário alegando q eu tinha gostado eu neguei e fiquei feliz porque meu pai acreditou em mim novamente. Todas as vezes ele me ameaçava. Eu já havia caído duas vezes não ia cair na terceira.

Cheguei a conclusão que isso é feito por todos os garotos. Os garotos com quem fiquei praticamente todos deixavam uma mão boba aqui e outra ali. Meu primeiro namorado não foi diferente. Terminei logo após ele passar dos limites. O primeiro garoto que me apaixonei só não conseguiu nada porque comecei a chorar e ele brochou. Eu fico feliz em dizer que minha primeira vez foi com quem eu escolhi, com alguém que me respeitava e que eu tomei a inciativa. Não é à toa que ficamos tanto tempo juntos.

Eu cresci e achei que poderia controlar a situação, mas não foi o que aconteceu. Quando estava fazendo estágio no INSS, um senhor que era servidor público de outra cidade, vou chama-lo de S, pediu que eu o ajudasse em um curso que ele daria na agencia da minha cidade. Marcamos a reunião e alguns dias depois S estava lá. Enquanto eu trabalhava no computador S colocou a mão entre as minhas pernas e eu simplesmente travei. Não consegui reagir.

Felizmente, ou não, não passou disso. S queria marcar outra reunião. Então resolvi contar para um amigo que trabalhava no setor ao lado do meu, pois não sabia o que fazer. Marquei a outra reunião e este meu amigo ficou lá vigiando. Felizmente, S nunca mais voltou. Contei também para o meu então namorado que me perguntava porque eu não fiz nada. Como seu eu já não sentisse raiva de mim mesma por não ter reagido. A minha então sogra, que também é servidora do INSS e trabalhava na mesma agencia que eu, disse que esse servidor já tinha histórico de abuso sexual, outro caso que foi abafado.

Meu pai sempre foi meu herói, pois ao contrário de muito pais por aí ele sempre acreditou em mim. E isso foi muito importante pra mim. Acho que uma conversa sobre o que e como é sexo teria ajudado bastante e evitado muitas coisas. Mas meus pais são conservadores e não debatem sobre isso. Talvez este tenha sido nosso pior erro…