Sou assediada desde os 10 anos; hoje eu revido! – 1127

1127 – Hoje tenho 32 e além de lésbica, sou dyke e feminista. Lésbica é uma mulher que só se relaciona com mulheres; dyke é uma mulher que adota certos trejeitos masculinos, seja em atitudes, seja em vestimentas; e feminista é uma mulher que luta pelo direitos das mulheres.

Mas nem sempre fui assim… Já me relacionei com homens, já fui muito feminina e já fui vitima do machismo. Várias vezes, até que aprendi a lutar.

A minha primeira lembrança remota quando eu tinha uns 10 anos de idade, estava com outras crianças subindo a rua vizinha, estávamos indo explorar uma casa mal assombrada (era só uma casa velha abandonada, rs), do outro lado da rua tinha uma casa com uma janela enorme, dessas que vão até o chão, e por trás da cortina transparente, um homem estava nú, ostentando sua ereção para nós, crianças. Fiquei chocada.

Depois eu tinha 11 anos, sofria bullying na escola desde sempre, por ser de classe inferior a maioria e ser esquisitinha… Então estava sempre só. Um dia um ‘menino’ da minha sala, que já era repetente então mais velho, devia ter uns 13 ou 14, escreveu em uma folha um oi para mim, respondi e ficamos escrevendo ali naquela folha, como um chat. Eu me sentia bem, falávamos trivialidades, eu achava que estava fazendo um amigo. Bateu o sinal e fui ao banheiro, quando sai o garoto estava ali, no banheiro das meninas, não tinha ninguém, todos apressados para irem pra casa… Ele veio andando na minha direção com um olhar estranho e me mostrou o pau. Ele era mais velho, tinha pelos e tudo, tentou se esfregar em mim, fui correndo até em casa, cho-ca-da!

Com 12 anos meus carocinhos nos seios já começavam a aparecer, mas eu ainda era criança, ainda andava só com os mais novos e brincava de bonecas… Entrei correndo pela garagem do prédio, era hora do almoço, na escada estava sentado o vizinho de cima, bêbado, quando me viu se levantou e me abraçou contra a parede, falou que eu estava crescendo e se esfregou em mim, passou a mão nos meus ‘seios’, eu me desvencilhei e corri, corri, corri. Não contei pra ninguém, meus pais eram adeptos das surras, e eu vivia apanhando por ser a culpada de todas as coisas do mundo, provavelmente seria a culpada dessa merda também…

Ainda com 12 anos, um amiguinho da mesma idade (crescemos juntos), me chamou para ir na casa do amigo do andar de cima, chegando lá ele me atacou! Enfiava a mão dentro das minhas roupas, se esfregava, me apertava cada vez que eu tentava sem sucesso me soltar. Eu olhava suplicante para o outro menino, e com os olhos ele me disse que os meninos eram assim mesmo, que ele não poderia fazer nada. Depois de alguns minutos que pareceram horas, esse menino pediu para o desgraçado parar, ele parou, mas me bateu.

Aos 13 anos todos das redondezas já tinham tirado o BV, uma amiguinha falou que já estava na hora de eu fazer o mesmo, embora mentalmente eu ainda me sentisse criança. O menino que tirou meu BV foi uma gracinha. Mas a merda foi feita alguns meses depois, quando eu fiquei com um menino de outro bairro, ele parecia um polvo, com mil braços pegando em todos os lugares e eu tentando faze-lo parar inutilmente, ele enfiou a mão dentro do meu short e enfiou o dedo em mim, e assim perdi minha virgindade, contra a minha vontade, com os dedos de um babaca qualquer, saiu muito sangue.

Esses foram casos que me marcaram muito. Mas cresci, com 14 anos meus pais souberam que eu tinha beijado um menino, minha mãe gritava que eu era uma vagabunda.

Com 16 anos minha mãe leu meu diário e descobriu que no ano anterior eu tinha perdido minha virgindade (tipo feito sexo de verdade, invés daquele estupro com os dedos que aquele babaca acima fez), com meu namorado da época. Mesmo ela sabendo que era com o namorado que eu já estava a mais de 1 ano, ela berrava que eu era vagabunda, vadia, puta. Não me ensinou nada sobre contraceptivos ou como me cuidar dos homens, porque né? É preciso todo cuidado do mundo! E uma adolescente não tem muita noção disso.

Tive que aprender tudo sozinha, e já que minha própria mãe me considerava tão puta, tão vagabunda, eu agia como tal, fui bem vulgar e fiquei com muitos caras. Não tava nem ai, aprendi a usá-los da mesma forma que fizeram comigo.

Hoje eu tenho uma relação estável com uma mulher, há muito amor.

Hoje eu me visto para chamar atenção das mulheres, se coloco uma calça apertada demais, uma blusa curta de mais, eu me sinto vulgar, pois sei que homens sem noção mexem com qualquer uma que mostre seus dotes femininos, então eu tento escondê-los…

O feminismo surgiu na minha vida como um salvador! Com ele aprendi que minha mãe era uma vitima machista do sistema. Que todos os babacas exploradores de mulheres são só primitivos dignos de pena. Eu tenho cara de má, jeitinho de marrenta, hoje é raro algum ter coragem de mexer comigo, mas desde a muito tempo, mexeu comigo e passou dos limites, eu sento a porrada! Claro que tenho medo de revidarem, mas sabe, quando alguém fala uma obscenidade, você tenta revidar com palavras de respeito e é imediatamente taxada de vagabunda (já que para eles, qualquer uma que não quiser dar é automaticamente uma vagabunda, já perceberam?), prova que o dialogo não basta pra abrir os olhos, eles precisam mesmo é levar umas boas bofetadas. Nunca revidaram, ao contrario, ficaram assustados.

Eu revido cantadas com olhar fulminante, discursos de liberdade feminina, xingamentos, chutes no carro ou parto pra briga se necessário. Não pensem que é fácil, porque não é, escrevendo aqui meu coração está acelerado, como fica quando acontece uma situação em que é preciso agir assim… Mas digo meninas, não criem trauma, quando acontecer algo em que um homem se aproveitou do machismo para feri-las, revidem! Xinguem, façam barraco, gritem, deem bolçadas, cadeiradas, qualquer coisa, mas não deixem passar em branco, porque se deixarem, o machista pode fazer muito pior depois com outra mulher inocente.

Juntas somos fortes, não esqueçam nunca que não estamos sós, unidas somos poderosas! Então exerçam seu poder o/