Sou assediada desde os meus 11 anos – 1228

1228 – Sou assediada (ou agredida, por que até o fiu-fiu pra mim é uma agressão) desde meus 11 anos. No começo saía na rua, e não entendia o porquê das buzinas e nem entendia o que os caras gritavam pra mim. Quando caiu a ficha fiquei com ódio, me senti violentada.

A cada buzinada/cantada/esbarrada eu xingava, mostrava o dedo do meio… O problema é que a situação vai ficando tão recorrente, que a gente acaba se resignando.

Um dia desses revidei com um dedo do meio, e o dono do carro travou toda uma pista, na Avenida Paulista, pra berrar que eu era uma puta, ou “enfia você, você tem cara de quem gosta”: os carros que tiveram que ficar parados, atrás desse, notaram que eu era o motivo daquela loucura toda e entraram na onda. Em um minuto, muitos carros começaram a buzinar e a gritar “elogios”. Entrei chorando no metrô. As pessoas não me dirigiam olhares de pena diante daquela situação, nem nada um pouco reconfortante, me dirigiam olhares de DESAPROVAÇÃO. Como se eu fosse a culpada de tudo aquilo, como se o assedio fosse uma consequência óbvia e correta, de algo que eu sou/fiz. Não sei o que me deixou mais triste, só sei que foi a situação mais humilhante pelo qual passei.

Uma vez, um vizinho que tinha uma oficina, me assediava ferozmente e quando ignorado, gritava que eu era uma sapatão, que eu precisava de um pica, que ele podia me “dar um trato” (obs: eu tinha 13 anos, ele tinha uns 40). Isso era diário. Passei a atravessar a avenida, e atravessa-la de volta, só pra evitar passar na frente da casa desse cara. Foi necessário chamar a polícia pra que ele parasse.

Em outro caso, meu professor de matemática do Ensino Fundamental (7ª série), um velho nojento quase 45 anos, dava em cima de mim em todas as aulas. As vezes chegava a até me pedir (mais que isso, exigir) um beijo na bochecha quando me via indo embora. Até que me adicionou no Facebook, e começou a perguntar qual era a cor da minha calcinha, entre outras merdas. Só bloqueei o cara, e me mantive o mais longe possível, mas hoje vejo que poderia ter feito muito mais.

Tenho muitas histórias, mas essas são as principais, que eu lembro no momento.

Assedio é uma coisa que, mesmo depois de anos passando por isso, não consigo me conformar. Não me acho bonita pra tanto, mas mesmo se achasse, nada justifica essa intimidação machista pela qual somos obrigadas a conviver diariamente.

Quando saio na rua já coloco meu fone. Uma mulher preferir/ter que ficar alheia a qualquer som sempre que sai de casa, ao invés de uzomi serem obrigados a usarem o bom senso, é o cúmulo.