sou homem, poderia tê-lo arrebentado facilmente – 1116

1116 – Conheço esta página há alguns meses e a acho incrível por mostrar a mulheres e, principalmente, a homens como os casos de assédio são banais e podem ser confrontados. Uma pena que meu relato date de antes deste contato (do início do ano passado) e, mesmo já sendo feminista, na época não soube bem como reagir. Nunca contei para ninguém o que se passou tanto pela vergonha quanto pelo medo que fossem zombar de mim, mas agora que encontrei este lugar, fiquei com vontade de compartilhá-lo. Também nunca vi na página relato semelhante, então acho que tenho alguma coisa a acrescentar.

Era de manhã e eu estava no metrô indo para a universidade depois de treinar na academia, como costumava fazer às vezes durante a semana, pois tinha o primeiro período livre. O metrô de SP neste horário é sempre bem cheio, mas, como eu disse, até aqui nenhuma novidade. Considerando que eu moro longe da faculdade, eu sempre leio alguma coisa durante a viagem para poupar tempo, então, devia estar estudando. Peguei o meu livro e comecei a lê-lo rente ao meu corpo porque quase não havia mais espaço. Eis que pouco tempo depois, eu comecei a estranhar a situação: não parecia um empurra-empurra normal. Foi só quando afastei o livro do meu peito e olhei para baixo que vi que havia uma mão passando sorrateiramente no meio das minhas pernas! O cara que estava na minha frente estava meio que posto de lado, e balançava exageradamente o braço estendido no agito do trem para se aproveitar de mim. Ai que desespero!! Foi tanto que na hora fiquei sem voz e não consegui gritar com ele. Imediatamente tentei me proteger com a minha mão e olhei diretamente para ele: olhava para outra direção, como se nada estivesse ocorrendo, enquanto continuava a dar uma ou outra investida, como se fosse acidental (lembro que a mão dele passou na minha). Olhei para os lados e tive certeza que ninguém tinha visto nada, pois o desgraçado era muito sutil. No amontoado de gente, eu tentava a todo custo recuar; assim que o trem parou na estação seguinte e as pessoas se mexeram, atropelei geral do jeito que deu para sair dali e ir para outro ponto do vagão. Só lembro do sentimento forte, uma mescla de ódio, vergonha e uma tristeza que dava até vontade de chorar. Não senti culpa – pois, sei bem que quem causa assédio é quem assedia -, mas senti vergonha de mim mesmo, afinal, eu teria lido tanto a respeito de feminismo e ação em vão? Como pude deixar que me usassem e não fazer nada? A minha raiva só aumentou e pensei que deveria ter quebrado a cara daquele escroto. Sim, acontece que eu sou homem, e poderia tê-lo arrebentado facilmente, mas não pude. Acontece também que sempre fui reservado e um pouco tímido, do tipo que fica envergonhado ao chamar muita atenção. Na hora do susto, logo soube que o babaca iria se fazer de desentendido na primeira oportunidade em que eu agisse; e, com raiva, se eu o acertasse, isso poderia ter muitas consequências negativas tanto para mim (com certeza seria levado pela segurança) quanto para todo mundo naquele vagão. De todo modo, sei que deveria ter feito algo, mas só quem passa alguma vez por isso entende como ficamos perdidos.

Também acho que essa seja a verdadeira razão pela qual eu não contei a ninguém mais, pois fiquei com medo de ser ridicularizado por não ter agido como o esperado: agressivamente, em defesa da honra, como um “homem de verdade”. Eu já tinha sido “comido pelos olhos’ em outras ocasiões, porém, dessa vez eu soube em parte o terror que as mulheres enfrentam diariamente e nunca fui tão humilhado. Tinha sido estuprado.

(Lembrei de um amigo que na época do colegial me contou da vez em que dormiu no ônibus e acordou com o cara sentado do lado dele passando a mão em sua coxa e virilha. Na época eu nem consegui imaginar essa cena, de tão surreal. Hoje, eu posso.)