sou negra e me irrito MESMO quando me chamam de “Morena” – 676

676 – “Eu tenho 19 anos, estudo numa das melhores faculdades do país, faço biologia. Sou negra, tenho coxas grossas e bunda grande, sou alta (mais do que muito homem). Tenho cara de brava e mal-humorada naturalmente. Não uso roupas curtas ou apertadas, e não tenho nada contra quem usa. Por experiência própria eu sei que o tipo de roupa que a gente usa não interfere no número de cantadas grotescas que recebemos. Eu estava fazendo uma excursão de campo com a faculdade, estavamos numa estrada de terra com casinhas muito simples na borda. Para andar por ali só de moto ou veículos grandes. Nós estavamos a pé, eu e mais duas amigas, voltando para o onibus que nos levaria de volta ao hotel. Passou um caminhão com uns três caras na cabine, eu estava andando mais a frente, quando passaram e falaram alguma besteira pra mim (que eu não entendi) mas você sabe quando um caminhoneiro te dá uma cantada: ele fica olhando para trás da janelinha no caminhão, talvez na esperança que você mande um beijo para ele. Minhas amigas riram, e disseram coisas do tipo: “hum, ta arrasando corações” e eu ri meio sem jeito e disse: “eu detesto isso, é nojento e constrangedor. Mas eu me irrito MESMO quando me chamam de “Morena” “. Continuamos andando e vimos uma moto vindo, com dois caras. Eu estava cansada, tinhamos andado uns 3 quilometros. Estava quente, e eu já tinha suado muito. Eu usava calça jeans e camiseta de manga comprida e galochas sujas de terra. Cabelo preso, nenhuma maquiagem só o mau-humor e o cansaço estampados na cara. Pois os dois homens na moto passaram por mim e gritaram , já quando eu estava perto do ônibus com todos os meus colegas que turma por perto : “Ê MORENA COISA LINDA!” Minhas amigas riram. Riram, na verdade, porque eu havia acabado de dizer que odiava quando me chamavam de morena (ou pelo menos é nisso que eu quero acreditar). Eu mostrei o dedo do meio e soltei um “filho da puta” mas acho que eles não ouviram. No ônibus, elas contaram para todas as minhas outras amigas e agora eu sou a “morena coisa linda”. Eu estava suada e suja de terra, eu não usava roupas curtas ou justas, eu não olhei para os caras da moto e dei um sorrisinho ou qualquer uma dessas coisas que as pessoas acham que são atitudes de mulheres que “não se dão ao respeito” ou de mulheres que “Estão pedindo” e mesmo assim aconteceu. Por isso eu reforço o quão cretino é esse pensamento machista de que isso só acontece “com quem provoca esta situação”. NINGUÉM PROVOCA ESSA SITUAÇÃO. Posso eu estar de saia e top com a barriga de fora, posso eu estar de galochas e blusa de manga comprida. Em nenhum dos dois casos eu estou pedindo para ser humilhada e constrangida.”