“suas coxas estão muito grossas, eu vi” – 661

661 – “Fui gratuitamente assediada. Devia, é o que dizem, ficar lisonjeada, grata. Fiquei triste. Um moço me emprestou um filme esses dias, pra puxar assunto. Eu esqueci de ver até.  Hoje ele veio beber aqui no comércio de casa. Me viu, me chamou. Perguntou sobre o filme, eu disse que tinha gostado, agradeci, disse que ia buscar.  Ele disse que eu estava muito linda. Agradeci a gentileza. Então ele disse “suas coxas estão muito grossas, eu vi”. O quê? “Suas coxas estão muito grossas”. Assim, sem qualquer intimidade, sem cerimônia, no meio de todo mundo, com o comércio cheio, meus pais presentes. Constrangida, disse que não tinha entendido, que ia pegar o filme.  Voltei, entreguei, agradeci. “Você tá com umas pernonas, viu”, alto, de novo, desconcertante, no meio de todos. Entrei chateada, relembrando como ainda é ruim ser menina. Mamãe disse que é porque minhas pernas realmente estão grandes, só por isso. Mas não interessa, não é “elogio” que um desconhecido possa fazer. Você nunca ouvirá uma mulher falar da bunda de um anônimo, mas eu vou ouvir ainda muitas outras vezes. Vou ouvir que sou gostosa, vão olhar pra minha bunda descaradamente, vão me medir da cabeça aos pés. Na rua, no ônibus, dentro de casa. E ainda serei vista ainda como mal agradecida.”