“tá vendo, ninguém mandou ir ao bar” – 876

876 – “Muito obrigada pelo espaço de desabafo, no meu caso eu fiquei muito tempo digerindo isso tudo, acho que foi uma coisa leve, mas pra mim pesou… E não soube lidar com isso.
O que houve não foi exatamente uma cantada, bom, sei lá, acho que foi sim, né. Estava no bar depois do trabalho, com meu chefe e mais um cara. Este outro cara, eu não conhecia direito, mas o achava engraçado, normal. Portanto, ria de suas piadas. Após um tempo, este outro cara começou a me elogiar, dizendo que eu sou demais, que sou tímida, misteriosa, linda, que adora o meu estilo etc. Aí eu já comecei a me envergonhar muito, mas minha única reação foi dizer que era casada e rir – porque costumo me defender das coisas rindo, tentando “ser simpática”, para não deixar as coisas chatas para os outros… Acaba ficando chato só pra mim, mesmo. Em certo ponto eu falei que já havia bebido um pouco demais, ele falou “ah, já tá facinha?”, seguido de risos, e eu novamente ri, dizendo que não com a cabeça, porque não soube ter outra reação, mas sentindo que algo não estava certo. Eu estava extremamente desconfortável com aquela situação, fui pega totalmente desprevenida, não consegui “me impor” e pedir para o cara parar com isso mais incisivamente. Enfim, aconteceu que nos dias seguintes mal olhava para o rosto da pessoa, e sempre que cruzo com ele, se é inevitável, cumprimento, mas nunca vou esquecer e vou ficar pra sempre me sentindo envergonhada. Não sei como lidar com isso e coloquei sobre mim mesma uma pressão para saber, dizendo a mim mesma que eu não deveria levar isso muito a sério, deveria ter mais “jogo de cintura”, ou enfim, saber me impor melhor.
E a história continua: meu chefe, numa atitude que considerei cretina, comentou sobre o “ocorrido” com duas outras moças do trabalho. Não soube exatamente como ele contou, porque elas vieram me perguntar sobre, então eu contei minha versão, disse que não gostei, que foi chato. Posteriormente, ouvi comentários das moças, brincadeiras, como “tá vendo, ninguém mandou ir ao bar”, ou, quando recusei um convite pra ir à loja Marisa, “ah, se fosse pra ir no bar vc ia querer né?”. Comentários que, apesar do tom de brincadeira, são machistas e me deixaram chateada, e veja bem que foram feitos por mulheres, uma dela se considera super descolada. Porra, sim, eu gosto de ir ao bar, e acho muito mais legal ir ao bar do que ir na loja Marisa, e acho que não sou a única mulher que pensa assim. Mas não, mulher que é mulher tem que gostar de comprar, de ver e experimentar roupas loucamente, né? E o pior é que acho que elas nem vêem o machismo em seus comentários. Lição que fica: moça, não vá ao bar, não dê risada de piadas de homens, porque eles vão achar que você quer dar pra eles. Outra lição que fica: mulheres contribuem muito na propagação do machismo, apesar de serem apenas vítimas disso; é como o escravo que defende a escravidão. Será que está muito longe um mundo onde as mulheres não competem entre si, mas se unem e se ajudam?”