“Tão olhando o quê, porra?” – 629

629 – Estava no estacionamento do Carrefour guardando minhas compras. Estacionamento subterrâneo, iluminação insuficiente, ninguém à vista.  Dois homens em um carro passam por mim e assoviam e dizem outros gracejos que o pavor que eu comecei a sentir a partir do primeiro assovio não me permite recordar.  Estacionaram dois carros adiante do meu. Estufei o peito, vesti a máscara de tough girl, cresci uns 10cm para esconder o medo. Passaram a pé olhando e continuando com os comentários. Franzi a testa. Um deles era muito maior que eu, o outro era pequeno e magro. Podiam ser os dois pequenos e magros, o que sentia seria o mesmo.  Pararam, olhavam ainda. E eu tinha de levar o carrinho até o outro lado. Eles sorriam e ainda falavam coisas na linha mais chula dos absurdos que escutamos todos os dias.  Levei o carrinho, eles voltaram a andar mas ainda não haviam parado de olhar. Enchi-me de coragem e falei na minha voz mais grossa “Tão olhando o quê, porra?” Sumiram os sorrisos, me xingaram e foram embora.  Tremendo, voltei ao meu carro. Entrei, tranquei as portas, com dificuldade coloquei a chave na ignição e parti.  Hoje, por volta das 13h40, temi pela minha integridade física e minha vida.  Chega de abordagens como essa. Cantadas de rua, chamar de gostosa, tecer comentários sobre as bucetinhas das moças que se encontra pelo caminhos não são elogios, são pura violência.