“titio não gosta que você se vista assim” – 1264

1264 – Isso aconteceu quando eu tinha aproximadamente 12 anos…

Tenho 1,56 de altura, e sempre fui baixinha e magra. Hoje em dia, tenho 25 anos, e ainda sou barrada em balada por acharem que sou “menor” (por causa da cara de mais nova). Estou relatando isso para vocês terem uma noção de como seria meu rosto e meu corpo quando tinha meus 12 anos…

Eu morava em uma cidade pequena, e fazia curso de inglês às tardes, em um lugar relativamente perto de casa. Não existia condução, e eu precisava andar a pé cerca de dez minutos de trajeto até lá (sozinha).

Meu bairro era residencial, portanto as ruas estavam sempre vazias – tanto de pessoas quanto de trânsito de carros, e o caminho até o curso consistia em descer a ladeira da minha casa, passar por um cruzamento e depois seguir por uma rua larga que daria na avenida principal. Esse cruzamento era como se fosse um trevo, onde não havia calçada, e a pessoa tinha que cruzar uma espécie de terreno baldio para poder atravessar até o outro lado.

Pois bem, um belo dia, estou eu, no auge dos meus 12 anos, voltando do curso, carregando meus cadernos de baixo dos braços. Não que isso tenha sido motivo para o que ocorreu – e, hoje, tenho plena consciência de que não foi e nunca será para nenhuma mulher – mas vou descrever a roupa que estava usando na ocasião: uma saia jeans na altura mais ou menos do joelho, um tamanquinho e uma regata. Enfim, enquanto eu caminhava distraída, já perto de subir a ladeira que dava para a minha rua, percebi que havia um homem caminhando em minha direção na calçada. Era um homem loiro, arrumado, e que tinha um crachá pendurado no bolso da camisa. Como olhei por alto, e não percebi nada de estranho (porque, convenhamos, um homem andando na mesma calçada que você não deveria representar alguma ameaça, certo?? Enquanto um homem, desarmado, arrumado, está passando por uma rua, ele é apenas uma pessoa passando por uma rua, igual a tantas outras que sempre fazem isso, igual a mim, ou qualquer outra pessoa), desviei o olhar dele e continuei andando.

Num determinado momento, senti alguma coisa no meu peito. Foi tão rápido, que na hora eu achei que tivesse esbarrado em alguma coisa, então olhei para o lado… E o que eu vejo: o homem, que agora estava passando do meu lado, e olhando para mim. Quando me recuperei do susto e consegui reparar na expressão do cara, eu me liguei que ele tinha enfiado a mão dentro do decote da minha blusa, e agora estava parado do meu lado, rindo da minha cara. Minha reação foi apenas olhar para baixo e apressar o passo, pois eu estava morrendo de medo e não tinha noção do que aquele sujeito ia fazer… Achei que se fingisse que não tivesse acontecido nada ele iria embora, mas ele continuou ali, parado, rindo e falando coisas absurdas, do tipo “titio não gosta que você se vista assim”, e outras coisas que não consegui entender por causa do nervosismo.

Segui caminhando a passos largos e cheguei no ponto onde tinha que atravessar o trevo, onde não tinha mais calçada e nenhuma casa onde eu pudesse tocar a campainha para pedir socorro se estivesse em apuros. Nessa altura, eu já estava chorando, completamente chocada com a audácia daquela pessoa e com a falta de respeito dela – e com medo, muito medo. Quando estava prestes a atravessar o cruzamento, um carro cruzou a rua e parou na minha frente (era um Santana vinho, com aqueles suportes para carregar bagagem no capô, me lembro até hoje disso). A porta do carro abriu, e eu vi que o motorista era o homem que tinha me assediado poucos segundo atrás. Nessa hora, meu cérebro entrou em pane e eu me lembro de pensar: “vou ser estuprada”.

Sinceramente, eu me lembro vagamente desse fatídico instante, não sei direito o que eu fiz, como eu fiz, mas sei que tirei os sapatos e saí CORRENDO MUITO… Nem sei como consegui passar pelo carro.. Mas lembro que o homem continuava com aquela expressão perversa no rosto, rindo de mim, e falando as mesmas coisas absurdas de antes sobre a minha blusa, o fato de eu estar sem sutiã, e se autointitulando meu tio (além de tarado, era pedófilo né)…

Cheguei em casa (não sei como) chorando MUITO, e por sorte, nesse dia meu pai não tinha ido trabalhar. Contei tudo para ele soluçando de chorar – tiveram que me dar água com açúcar porque eu tremia e não conseguia falar… Meu pai, mesmo revoltado, se manteve muito calmo, tentou me conter e me levou de carro até o lugar onde o homem tinha me agarrado para tentar achá-lo. Acontece que havia um boteco perto desse local, cujo dono era conhecido do meu pai, e ele então me levou lá e me fez descrever o sujeito para os caras que estavam no bar, e pediu pra que quem visse alguma pessoa parecida com a minha descrição que entrasse em contato para que ele fosse lá com a polícia.

Os homens que estavam bebendo no boteco, quando me viram, ficaram revoltados com o que passei e queriam linchar o tarado. Lembro do dono do bar olhando pra minha cara e falando “que absurdo, que filho da puta!” (eu realmente era uma criança, com corpo e rosto de criança). Acabamos não encontrando nunca mais esse cara, e eu tive que fazer um caminho duas vezes mais longo para ir ao curso de inglês depois desse dia, por medo de encontrar com ele de novo. Mas sei que, depois disso, alguma coisa mudou em mim – não saía mais de saia nem com nenhuma outra roupa que mostrasse alguma parte do meu corpo.. Passei a andar mal arrumada porque tinha medo de chamar a atenção de um estuprador em potencial, e comecei a sair com uma camisinha dentro da bolsa (para que, caso um tarado viesse me estuprar, eu oferecesse a camisinha a ele, me poupando de pelo menos não engravidar ou pegar alguma doença… hoje, depois de velha, até rio quando me lembro disso).

Essa infeliz situação aconteceu há mais de dez anos na minha vida, e talvez, para alguns (provavelmente para machistas), pareça uma coisa boba, fácil de ser superada.. Bom, talvez seria se eu tivesse crescido sem ver isso acontecer com outras meninas, se eu não tivesse uma irmã mais nova que também passou por um assédio, e se eu mesma, depois de velha, não sofresse o mesmo tipo de abuso – mesmo que agora ele seja apenas verbal – no ônibus, no trem, na rua voltando da faculdade, no centro da cidade na hora do almoço, e em toda circunstância em que me encontro sozinha tendo que viver a minha vida. O que me choca é que eu – com DOZE ANOS – apesar de entender que sofri um abuso, pensei na possibilidade de ter incitado o comportamento do homem de alguma forma. A culpa é implícita, a gente já é criada com ela (não pelos pais, mas pela sociedade). Acho que a prova disso é a gente ver essa coisa refletida até nas crianças.

Estou contando isso por diversos motivos.. Um deles é por ter lembrado desse acontecimento assim que curti essa página no facebook, e acho que esse tipo de coisa tem que ser falada, para que outras meninas/mulheres saibam que isso não acontece só com elas e que a culpa não é delas. É “normal” se sentir suja (mas não deveria ser) porque o machismo nos dá inúmeros caminhos para chegarmos a essa mesma sensação sempre, mas isso não quer dizer que você o seja, porque sujos são eles.

Outro motivo é para que todos ao menos tentem entender como é a sensação (horrível) de passar por uma situação dessas. Eu falo isso pensando inclusive naqueles caras que estavam sentados no boteco e queriam linchar o tarado. Porque imagino que eles mesmos já tenham “cantado” mulheres na rua, então, que saibam que elas se sentem do mesmo jeito que me senti quando aquele filho da puta enfiou a mão no meu decote. E enquanto existir patriarcado, suas filhas, amigas das filhas, vizinhas, esposas, sobrinhas, e etc, irão passar pela mesma situação.

Eu já li diversos casos parecidos com o meu até mesmo aqui na página, e vi que algumas vezes se questiona que o feminismo “generaliza” muito, que “nem todo homem é assim, esse cara que era um doente”. Sim, ele poderia ser um doente, eu mesma acho que era (é?)… O problema é que ele tem um poder que dá a liberdade para ele ter esse comportamento sem medo de ser rechaçado e impedido.

Quanto às outras mulheres adultas, que tem de seguir diariamente se esquivando de encochadas, fazendo ouvido de mercador para pornografias proferidas contra elas e convivendo com o medo de serem violentadas, meu conselho é: revidem. Gritem, reclamem, façam barraco, denunciem. Vocês não são frágeis, isso é só uma coisa que colocaram na nossa cabeça…