Todo ‘linda’ que ouço me atinge como uma facada – 1160

1160 – Isso é um desabafo sobre o que passo no meu dia-a-dia.

Nasci e cresci no Distrito Federal, tenho 18 anos, 1,77m de altura, olhos verdes e cabelos castanhos claros. Desde os 9 anos de idade (sempre pareci ser mais velha) ouço caras aleatórios mexendo comigo na rua, desde cedo cultivo nojo e medo dentro de mim. Desde sempre ouço da minha família que minha aparência chama atenção, que os homens gostam de olhar para mim, que eu deveria me sentir orgulhosa por ser bonita, etc.

Por muito tempo odiei ter uma aparência que chama atenção, até hoje tenho um complexo meio esquisito: queria ser mais baixa, queria não ter curvas, queria não ter corpo de mulherão.

Não, não me sinto orgulhosa. Sinto medo, tenho raiva de não poder usar minhas minissaias de tule, tenho raiva de não poder usar cinta-liga, tenho raiva de sair usando salto alto e já sentir olhares repugnantes em cima de mim. Vocês entendem? Tenho roupas maravilhosas no meu armário, mas todos os dias, quando olho para aquele vestido mais curto penso que algo de ruim pode me acontecer SÓ POR ESTAR USANDO MEU VESTIDO FAVORITO.

Depois de um tempo passei a reagir agressivamente às investidas de tais idiotas aleatórios. No ônibus, na academia, na faculdade, no metrô, na balada, em festas de família… A invasão não escolhe lugar. Já fui seguida na rodoviária, um homem quase me agrediu quando o ignorei, já fui xingada de mal comida, de metida, ignorante, mal educada, nariz empinado, etc.

Uma vez, foi há uns dois anos atrás (eu tinha 16), eu estava atravessando a bendita QNL para chegar até a estação Centro Metropolitano. Na rua vinha passando um cara num carro vermelho, ele estava sem camisa e usava óculos escuros. Reduziu a velocidade ao passar ao meu lado e foi me seguindo.

“Entra aí” Foi o que ele disse. Eu ignorei e continuei meu caminho. Ele insistiu, insistiu e insistiu até que obteve uma resposta negativa seca e mal educada. Ele, como esperado, me xingou e saiu de lá apressado. Eu imediatamente repassei mentalmente minhas peças de roupa: Saia, corset, meia calça preta e salto alto (há quem diga que me visto para atrair homens, mas nem de homem eu gosto. Por que eu deveria me vestir para eles?). Desisti de me encontrar com a minha mãe e voltei para casa, coloquei meu moletom e fiquei o resto do dia recolhida jogando vídeo game tentando esquecer aquele homem. Às vezes me sinto tão perdida e irritada que a única solução é voltar pra casa. Fico com tanta raiva, que choro. Todo ‘linda’ que ouço me atinge como uma facada, me deixa com a sensação de impotência.

A única coisa que me sobra é a esperança de que um dia as coisas melhorarão, e a partir disso ganho forças para enfrentar, para não voltar pra casa, para não chorar.