[TRIGGER WARNING – Relato de abuso e estupro] – 880

[TRIGGER WARNING – RELATO DE ESTUPRO]880 – “Olá, meu nome é ____________ e eu fui estuprada.
Faz pouco menos de dois anos que isso aconteceu e agora foi a primeira vez que eu consegui usar essa palavra para descrever o evento. E o que aconteceu foi um estupro. Eu não contei a ninguém exatamente. Tentei conversar com um amigo, que não fez muito caso do ocorrido. Outro, foi extremamente amoroso,entendendo facilmente o quão frágil eu estava. E eu nem precisei tirar o meu sorriso do rosto. Ele pode ver através da minha máscara e isso me conformou. Com seu abraço apertado no meu corpo pequeno, ele me deu a atenção que eu precisava naquele instante. Escutou cuidadosamente quando eu falava que não queria revelar quem tinha feito. Indignado, mas escutou.
Eu não saio na rua achando que todos os homens vão fazer isso comigo. Mas o único motivo de não achar tal coisa é porque não me sinto atraente nem para os estupradores. Sei que estupro não é questão de atração sexual na maioria dos casos, portanto não faz sentido que alguém seja julgado como bonito(a) ou não, usando esse critério. No entanto, é a única vez que me sentir feia me faz sentir segura também. Eu não me sinto vulnerável na rua por ser mulher. Na maioria das vezes, eu sequer percebo que sou uma mulher. Na rua eu me sinto segura dos homens, mas sozinha não. Depois do ocorrido com o meu ex namorado, que foi o responsavel por grande parte da minha já baixa auto estima piorar, percebi que não conseguia me envolver com homens como conseguia antes. Eu tinha a confiança de ficar com alguém só por ficar e me sentia bem com isso. Hoje isso não existe. Namoro com alguém extremamente bom, mas a questão sexual ainda é um problema entre nós dois. O sexo existe, mas não tanto quanto ele quer e muito mais do que eu aguento. Não sinto mais tesão. Não tenho vontade de me envolver com um homem. Não tenho mais disposição para tentar. E muito menos tenho confiança de ficar nua na frente de alguém.
Desde o ocorrido eu evito consultas ginécologicas. Sei que não estou gravida e completamente livre de DSTs, mas ainda acho grave que eu não compareça aos exames que preciso. Até porque tenho dois cistos nos ovários que me prejudicam bastante. Não menstruo mais por conta dos cistos e do estess. Tenho perda de cabelo e ataques de ansiedade. Sinto-me um lixo. Não me sinto confortavel de ficar nua na frente do meu próprio namorado, mesmo que já tenha me visto assim incontáveis vezes. A voz do meu estuprador (ou ex namorado) sempre ecoa na minha cabeça com as coisas que ele costumava me dizer. Dizendo que (insira um aspecto qualquer da minha aparência) era um lixo. Ou me mandando emagrecer. Eu não podia abraça-lo em público. Se quer sentavamos lado a lado quando saíamos em grupo. No sexo, ele virava o rosto para o lado oposto e não me olhava. Terminava, levantava e saía, deixando-me sozinha lá. Chegou a brigar comigo quando eu menstruei e ele queria sexo, me obrigando a lhe fazer oral ou a masturbá-lo. Reclamou a semana inteira, me fazendo sentir um lixo. Uma vez achei que estava grávida. Vomitei por quatro dias de manhã até ter coragem de comprar um teste farmaceutico (comprei três para ter certeza). Todos deram negativo e eu fui entusiasmada contar a ele. Até então, não tinha nem mencionado das minhas suspeitas. Ele não se importou. Aquela reação me indignou. Eu questionei o que ele faria se eu estivesse grávida e a resposta veio com desdém “Nada”.
O relacionamento durou um ano. E perto de completar essa data, foi que tudo aconteceu. Eu tinha me mudado para outra cidade na qual ia estudar. Ele, que continuou onde moravamos juntos anteriormente, me visitava na minha nova casa. Foi me ver três vezes e óbviamente, tudo o que ele esperava era sexo. Não tinha nada mais para fazer. Ou melhor, eu não tinha outra escolha. Da última vez que me visitou, eu fiquei doente. Ele havia chegado num dia a noite, e eu neguei sexo por estar muito cansada. Ele, mesmo extremamente irritado, acabou aceitando. No dia seguinte, quando acordamos, eu me sentia enjoada. Começou com enjoo e depois aumentou para uma dor nas costas. Mais tarde percebi que eram os meus rins (e exames provaram serem pedras nos rins). Em poucas horas eu estava completamente imobilizada na cama por conta das dores. Foi então que tudo aconteceu. A oportunidade de transar sem que eu reagisse, a manipulação psicologica e o descaso com os meus “nãos” deram a ele todas as chances de se safar. Na época eu me culpei. Até hoje me culpo. Mas não pelo que aconteceu. Me culpo por ter aguentado. Por não confiar no meu julgamento e tentar maquiar a situação atribuindo o beneficio da dúvida a quem não merece. Achando que estava a ver o pior lado de alguém e que era apenas neura minha.
Satisfeito, ele não esperou muito tempo lá. Afinal, eu estava imovel e não tinha como fazer muita coisa. Ele não se interessava por conversas também. Poucas horas depois, foi embora. Nunca mais o vi, pois até para terminarmos, foi pelo facebook. E eu fiquei alí. Imóvel, com pedra nos rins, humilhada, sozinha, deitada no chão do meu quarto. Fiquei por uma semana lá (estava vomitando e sem comer), até que implorei a uma conhecida para que comprasse remédios para que eu pudesse ao menos levantar para ir ao hospital. Alguns dias depois, eu estava um pouco melhor e fui ver um médico. O atendimento me foi negado.
Hoje não consigo me sentir a vontade, não tenho confiança, larguei a faculdade e me mudei de cidade. Não tenho contato algum com nenhum amigo ou amiga daquela época. Não quero contato com ninguém. Só quero paz.”