[TRIGGER WARNING – Relato de abuso familiar] – 854

[TRIGGER WARNING – Relato de abuso familiar]

854 – “Quero compartilhar com vocês uma história que aconteceu comigo na minha família, nao é um caso de cantada mau caráter e sim de abuso.

Minha família é de origem Portuguesa e católica e logo, meu avô era muito machista. Ele teve duas filhas mulheres. No ano do casamento da minha tia, minha mãe, que não era casada, descobriu que estava grávida do meu pai. Ela escondeu a gravidez por medo até um mês antes do casamento da minha tia (que foi na verdade um orgulho pro meu avô ver a filha mais velha se casar na igreja). Um mês depois eu nasci e quando saímos do hospital meu avô disse pra minha mãe que ela era a maior decepção da vida dele, mas que eu era mais ainda por ser mulher.
Quando eu tinha meus 10 anos, meu avô trazia balas pra mim e uma vez no sofá “mediu” o tamanho das minhas pernas com a sua palma da mão. Achei estranho, mas não passou pela minha cabeça que eu estava sofrendo um abuso, e era muito criança ainda pra entender o que estava acontecendo.
Uns anos depois, minha mãe e meu pai se separaram e eu voltei a morar na casa dos meus avós com a minha mãe.
Eu lembro de ter presenciado algumas vezes meu avô com a mão dentro do short mexendo no pau e olhando pra mim, eu ja entendia o que estava acontecendo e não abri a boca pra nao magoar a minha vó, e quando percebia que ele estava se masturbando, mudava de cômodo da casa.
Até que uma vez a casa precisou entrar em obra e fomos todos morar por algum tempo na casa da minha tia.
Ele, mesmo velho e cheio de problemas de saúde, continuava com essa dessa atitude.
Até que uma vez eu presenciei a mesma coisa que acontecia comigo ocorrer com a minha prima mais nova, na época ela tinha 14 anos e eu já com os meus 18. Nunca senti um ódio tão grande, dessa vez eu estava vendo de fora. Chamei ela e disse pra ela sair de perto quando isso acontecesse, e nessa altura do campeonato eu já tinha até falado com a minha mãe, mas ela agiu com naturalidade dizendo que ele era velho demais, estava ficando maluco e com muitos problemas de saúde, tinha pena dele.
Isso me revoltou mais e decidi que precisava fazer alguma coisa, pois eu sabia me defender, mas minha prima mais nova poderia passar por uma situação muito pior.
Uns dias depois ele voltou a se masturbar na minha presença e não pensei duas vezes, fui até a direção dele, olhei bem nos olhos dele.. bem de perto, peguei no seu braço e disse em um tom rispido: você quer ser preso e passar o que resta da sua vida na cadeia depois de velho?
Na mesma hora ele parou de fazer o que estava fazendo e falou: ‘não não….’ e eu respondi: ‘acho bom!’ E voltei pro lugar onde eu tava como se nada tivesse acontecido. E ele parou.
Ele nunca mais fez isso. Um ou dois anos depois ele foi internado e eu fui visitá-lo no CTI. Ele muito mal e chorando pediu desculpas e nem disse pelo o que, eu respondi “sim” com a cabeça e me retirei. Ele não precisou dizer pelo o que me pedia desculpas, eu entendi.
Uma semana depois ele morreu e eu vi minha família desabar de tristeza diante do caixão dele. Mas eu…… Nunca nenhuma lágrima caiu do meu olho. Acredito que eu não o tenha perdoado e nem se isso vai ser possível um dia.
Em relação a minha mãe, ela não tinha noção da gravidade do problema e encarava com naturalidade, acredito que isso acontecia por ela não ter tido informações suficientes sobre os direitos das mulheres e quem sabe tenha passado pelo mesmo tipo de situação.”