trocou o meu pneu e queria um beijo em troca – 637

637 – “Eu sou analista de infraestrutura, trabalho rodeada por homens, já tive empregos em que eu era a única mulher do setor, ou até do andar. Na época eu trabalhava num datacenter e era a única mulher do suporte. Trabalhava no turno da madrugada, e era plantonista fim de semana sim, fim de semana não. Assim que entrei na empresa, recebi todas as “atenções” possíveis de cada um dos caras dos trabalho. Até eles perceberem que eu não estava ali pra brincadeira e que eu levo meu trabalho a sério. Trabalhar rodeada de homens é complicado, é só você dar um mole e eles já acham que você está a fim. Às vezes eu tinha algum problema, mas nada que uma conversa que colocasse os pingos nos “is” não resolvesse. Estava tudo tranquilo até ter uma escala especial de feriado, meu turno caiu numa terça-feira de carnaval, nesse dia estava das 7hs às 19hs. Era perto da hora do almoço e o cidadão chegou falando: – X, aquele carro azul aqui na frente é seu né? O pneu do motorista tá arriado. – Beleza, assim que eu pausar pro almoço vou lá trocar. (em momento algum pedi ajuda a ele, todo mundo sabe que trocar um pneu de carro não é tarefa de outro mundo – e sou filha de mecânico, cresci dentro da oficina do meu pai, bem ou mal aprendi a me virar com algumas coisas básicas num carro). Quando desci, o cidadão vira pra mim: – Você está indo trocar o pneu? Te ajudo. Eu disse que não precisava e que me virava sozinha, mas ele insistiu. Tudo bem, eu acreditei na boa vontade do sujeito. Ao descer, um mendigo se ofereceu pra trocar o pneu, e que eu pagasse um almoço pra ele. O cidadão sequer me deixou falar com o mendigo, já foi tirando a chave do carro da minha mão e abrindo a mala do meu carro. Enfim, pneu trocado. Quando estávamos indo em direção a porta da empresa novamente ele me segura pelo braço e pergunta: – E aí, o que eu vou ganhar em troca? Primeiro eu pensei que ele estivesse brincando. Depois eu entendi o que ele queria dizer com isso, mas me fiz de desentendida. Pedi para que ele largasse o meu braço, e disse que pagaria o almoço dele. Ele disse que não era esse tipo de pagamento que ele queria, e disse pra eu dar um beijo nele. E puxou meu braço com força para que eu chegasse perto dele. Eu disse que não, que ele estava louco e etc, e ele simplesmente disse: – Só um beijinho não faz mal! Meu sangue ferveu, eu dei um empurrão nele e entrei bufando na empresa. Só que lá era um prédio cofre, daqueles que você só abre as portas passando o crachá, e eu comecei a ficar desesperada porque a cada porta que eu fechava, eu ouvia o bip do crachá dele passando e abrindo as portas atrás de mim. Não podia ficar esperando o elevador até o 4o andar com ele atrás de mim! Subi as escadas correndo, e ele estava atrás de mim, até que cheguei no meu andar, e ele conseguiu me segurar no corredor de entrada pro meu setor. E disse; – Como é, acha que é assim? Eu já estava desesperada, eu poderia ter gritado por alguém, poderia ter avisado à segurança, mas senti VERGONHA por estar sendo assediada! Eu tive medo de que se eu me expusesse naquele momento, outras situações parecidas viriam, ou ele poderia me retaliar de algum jeito, já que o setor dele era o que filtrava alguns tipos de chamados que eu recebia pra tratar. Só consegui apontar uma câmera e falar: – Você tá vendo aquela câmera ali? Você vai levar um soco nesse nariz bem na frente dela se você não me largar agora. E acho que você vai ter que se explicar pra segurança se eu fizer isso. Ele me largou e eu voltei tremendo pra minha baia. Depois fui ao banheiro e chorei, chorei muito. Nunca me senti tão humilhada! Entrei num ritmo frenético de entrevistas de emprego e em três semanas pedi demissão para ir pra outra empresa. Meu gerente não entendeu minha atitude, ficou chateadíssimo, mas disse que tinha meus motivos e precisava ir embora. Hoje eu sei que deveria ter exposto essa história a ele e ter queimado o babaca na primeira oportunidade que tivesse, mas a nossa sociedade é assim, você é assediada, você é a vítima. Mas em vez de os homens terem vergonha de fazer esse tipo de coisa, nós é que temos vergonha por termos sido assediadas. Mas acontece todos os dias. Seja de forma direta, ou de forma velada. Temos medo de que aconteça alguma violência conosco e vergonha de expor isso a alguém. ”
Recado para as inimigas “…o patriarcado arrancou os cabelos de desespero quando eu percebi que eu não precisava sentir raiva de outras mulheres. Ele esperneou quando eu parei de tratar outras mulheres como minhas inimigas. Ele gritou de ódio e até babou, porque se eu parasse de brigar com as outras mulheres, ia poder lutar CONTRA ELE.” http://www.alinevalek.com.br/blog/2013/06/recado-para-as-inimigas/