Você é gata desde pequenininha – 351

351 – “Já contei um caso, mas queria contar mais uma coisa que aconteceu comigo. Pensei várias vezes em relatar, mas sempre desistia. Quando eu era pequena, tinha uns cinco anos, um vizinho de uns vinte anos me falava coisas muito escrotas e obscenas. Eu não entendia nada, mas tinha medo dele. Até que um dia ele encurralou eu e uma amiga dois anos mais velha, nos chamou das coisas mais nojentas que já ouvi, disse que eu era a dançarina dele, coisas do tipo, eu fiquei muito assustada, não sabia o que fazer, ele passou a mão pelo meu corpo e o que aconteceu depois não passa de um borrão na minha mente. Sei que eu e ela saímos correndo e nunca tive coragem de contar isso pra ninguém, só minha amiga que estava comigo sabia.  Somente um ou dois anos depois, alguns primos meus começaram a me dar olhares nojentos, queriam que eu “brincasse” que era namorada deles, uma vez me trancaram no quarto e fizeram um terror psicológico comigo, queriam me obrigar a por a mão neles, queriam passar a mão em mim. Me seguraram e me obrigaram a fazer coisas horríveis. Uma vez uma tia minha pegou eles fazendo isso e disse que eu era sem vergonha, que a culpa era minha, que ela tinha nojo de mim, as coisas mais absurdas possíveis… Quando eu estava na sexta série, algumas meninas já faziam sexo e queriam me obrigar a transar com os amigos delas, mas como eu me recusava e ficava assustada, elas me excluíam, me xingavam, quando eu passava ficavam cantando em voz alta que eu era lésbica e que elas tinham nojo de mim. Em casa, tinha que lidar todo dia com meu pai extremamente machista e agressivo, que queria minha mãe e todas as mulheres da casa submissas a ele.  Pouco tempo atrás eu ainda sentia culpa, me sentia suja e afastava as pessoas de mim. Quando eu ficava com alguém, do nada entrava em choque, empurrava a mão da pessoa pra longe e não queria mais nenhuma aproximação. Passei a vida inteira com esses fantasmas me atormentando, sempre ficando triste, desesperada.  É triste lembrar o quanto eu estava ficando submissa, não tinha coragem de enfrentar ninguém.  Sexo era uma coisa assustadora, tinha medo e demorei muito para perceber que meu corpo não é uma culpa, que ele é meu e somente eu posso decidir sobre ele. Com o feminismo, vi que existe outro ponto de vista, comecei a ver o quão absurda eram as concepções da minha família de que o abuso era culpa da mulher, consegui abrir os olhos e enxergar a luta pelos direitos das mulheres. Uma mulher tem o direito de se vestir como quiser, de ficar com quantas pessoas quiser, de dizer não e ser plenamente respeitada. Foi muito difícil parar de sentir nojo de mim e nojo de sexo. O feminismo me ajudou a ser mais forte, a encarar o que aconteceu comigo e perceber que eu não tive culpa de nada. É muito difícil falar sobre isso, mas sei que devemos nos apoiar e relatar o que passamos, para assim, quem sabe, conseguirmos ser mais fortes juntas. Eu resolvi fazer esse relato porque esses dias o mesmo cara de quando eu tinha cinco anos, surgiu do nada e me disse na rua “Você é gata desde pequenininha”. Fiquei chocada, paralisada mesmo.  Hoje em dia sou a “feminista chata”, vivo escutando que eu exagero, que sou extremista e vejo machismo em tudo. Eu não crio nenhuma visão, o machismo infelizmente está em tudo mesmo. E não tenho mais vergonha de enfrentar as pessoas para dizer que elas estão erradas, para botar elas pra refletirem e defender os direitos das mulheres, o respeito. Cresci, internamente também e quando me ameaçam, tanto verbalmente, quanto fisicamente, me ergo, me imponho, encaro a pessoa e pergunto “O que você vai fazer agora? Eu não sou mais criança e sei dos meus direitos, nem sonhe em encostar um dedo sequer em mim que eu te denuncio”. Tenho passado por momentos de pura adrenalina, depois choro, percebo o risco que eu corri. Mas vou continuar sempre me fortalecendo. Questiono mesmo e sempre vou questionar! Nunca mais vou me calar!”