“Você é muito bonito”, “Onde é que você mora?” – 625

625 – Olá! Eu ia fazer este relato abertamente como comentário na página, mas como o relato não é meu… achei melhor fazer “em off”, mesmo. Mas acho que vale uma reflexão… o relato do Marcelo me lembrou de uma história que meu pai me contou.   Meu pai fazia faculdade à noite e voltava para casa à pé, tarde já. Ele sempre teve um físico bem magro e (diz ele) vez ou outra ouvia coisas de senhores de mais idade por conta disso. Quando ainda era calouro, voltando sozinho para casa (ainda no quarteirão da faculdade que, creio eu, àquela época era bastante mal-iluminado), foi abordado por um homem em um carro que lhe ofereceu “gentilmente” uma carona.  Hoje em dia ele comenta que não acredita que acabou aceitando. A verdade é que meu pai era um cara do interior (aliás, ainda é), e àquela época – devia ter uns 17 anos – era um tanto inocente ainda. Sentou-se no banco do carona. O motorista puxou conversa, e ele (já meio nervoso) ia respondendo de forma meio evasiva. Disse o bairro em que morava, mas felizmente não deu o endereço logo de cara.  Foi quando o homem (segundo ele devia ter quase uns 50 anos) pousou a mão na perna dele e a conversa foi tomando outro rumo. “Você é muito bonito”, “Onde é que você mora?”, “Podemos vir juntos mais vezes” e tal, e ia alisando, e meu pai apreensivo quase se encolhendo contra a porta do carro. Quando o carro parou em um cruzamento, meu pai abriu a porta com um “Pode deixar que aqui tá ótimo, moço!” e saiu correndo, meio com medo de o homem segui-lo até em casa.  Meu pai contou isso de uma forma meio displicente, quase como um “causo”, na verdade, mas não me arrisco a dizer que não tenha significado nada. Sabemos que numa sociedade machista o tabu da virilidade é muito forte, então não duvido que ele nunca tenha contado nada a ninguém até se passarem uns 30 anos do ocorrido (afinal “ele é pai, é hétero, ninguém mais pode julgá-lo ou culpá-lo por ter atraído um homem quando rapazinho…”). Com certeza ele deve ter tido medo de ser julgado na época (ou de ter sua “masculinidade colocada em xeque”), pois certamente apareceria alguém pra dizer que a culpa era do meu pai por ter entrado no carro, não é? Que ele “facilitou”, então “será que no fundo ele não queria mesmo…?”. Mas dá pra perceber que isso ainda incomoda, já que ele nunca relatou com mais detalhes as outras abordagens que sofria.  (Não posso dizer, infelizmente, que essa vivência o tenha tornado mais empático ao sofrimento feminino. Apesar de nunca tê-lo visto abordar mulheres na rua, ele às vezes solta “piadinhas” machistas e brinca com meus irmãos no carro quando passa por moças bonitas – pelo menos os comentários ficam “só” no carro e não se tornam assédio explícito, embora seja bem desagradável ficar ouvindo… e não ser levada a sério quando falo algo contra).  Mas o que me chamou a atenção quando li o relato do Marcelo e me lembrei do relato do meu pai foi o padrão de vítima. Como foi dito nos comentários, a aparência “frágil” costuma estar envolvida, pelo menos nos relatos que conheço. Rapazes mais jovens, os cabelos longos (no caso do Marcelo), o corpo magro…  Essa é uma forma clara de perceber que os assédios na rua não têm a ver com “interesse”, nem são uma “cantada saudável com o intuito de aproximar duas pessoas”. Trata-se de uma INTIMIDAÇÃO. O assediador se vale de sua posição “superior” quanto à força física para acuar sua vítima.  É por isso que mulheres (cis e trans), homossexuais assumidos e mesmo homens heterossexuais fisicamente mais delicados (normalmente mais jovens, que em teoria são menos seguros de si) são sempre as maiores vítimas desse tipo de abordagem. É uma demonstração de força, uma relação em que o mais “forte” subjuga o mais “fraco”.   Acho que deve ser daí que esse tipo de pessoa obtém o “prazer” (asqueroso) de se masturbar para uma garota de 12 anos, para perseguir uma moça de 15, para apalpar um rapaz de 17, para assediar uma grávida de 30. Não se trata de roupas provocantes, de interesse sexual pela pessoa, nunca se tratou disso. Trata-se de exercer poder através do medo. O medo e a vergonha sempre andam juntos formando uma mordaça para as vítimas.  E ainda há quem diga que devemos nos sentir lisonjeadas…”